Entre Duas Cidades
Rio de janeiro

Entre Duas Cidades

Entre Duas Cidades Rio de janeiro

* Economista e produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor, filho de João Pinheiro Neto  

 Há mais de vinte anos, vivo com o coração dividido entre duas cidades.
 Sempre que desembarco no Rio de Janeiro, antes mesmo de matar a saudade da praia ou rever os amigos, alguém acaba me fazendo a mesma pergunta:
 “Henrique, afinal, onde você prefere morar? No Rio ou em Miami?”
 Nunca respondo de imediato.
 Primeiro, porque gosto de recorrer ao humor inteligente de Tom Jobim, que conheceu bem esse dilema.
 “Morar nos Estados Unidos é bom, mas é uma merda. Morar no Rio é uma merda, mas é bom.”
 A frase provoca risos, mas apenas adia a resposta.
 A verdade é que eu nunca escolhi morar em Miami. Foi a vida que escolheu por mim.
 Quando o banco onde eu trabalhava decidiu transferir suas operações de Montevidéu para Miami, simplesmente acompanhei a mudança. Conto essa passagem com mais detalhes em Crônicas de um Mercado sem Pudor. Miami não foi um sonho americano. Foi uma consequência natural da minha profissão.
 O que era para ser apenas mais uma etapa da carreira acabou se transformando em mais de duas décadas da minha vida.
 Foi ali que construí minha rotina ao lado da Maritza Caneca. Foi ali que continuei trabalhando, fiz amigos e aprendi a admirar uma cidade organizada, eficiente e previsível.
 Mas nunca deixei o Rio para trás.
 Minhas filhas, Maria e Clara, permaneceram no Brasil. Muita gente imagina que a distância enfraquece a relação entre pai e filhas. Comigo aconteceu exatamente o contrário.
 Talvez porque nossa relação nunca tenha sido medida pela quantidade de dias juntos, mas pela intensidade dos encontros.
 Quando elas vão a Miami, ou quando nos encontramos no Brasil, o tempo é inteiramente nosso. Conversamos durante horas, viajamos, almoçamos sem pressa e rimos muito.
 Descobri que o amor não se mede em quilômetros. Nem em calendários.
 Mede-se pela vontade de estar junto.A distância nunca nos afastou. Apenas tornou cada reencontro mais precioso.
 Hoje vejo duas mulheres extraordinárias. Inteligentes, generosas, independentes e felizes.
 Tenho um orgulho imenso da Maria e da Clara. Talvez a maior alegria da minha vida seja olhar para elas e perceber as mulheres maravilhosas em que se tornaram.
 É justamente por viver entre essas duas cidades que comecei a enxergá-las de outra maneira.
 O Rio continua sendo, para mim, a cidade mais bonita do mundo. Nenhuma outra reúne mar, montanhas, floresta e luz de uma forma tão generosa.
 Ao mesmo tempo, poucas cidades me incomodam tanto. A desigualdade está por toda parte. É uma cidade partida, onde mundos completamente diferentes convivem lado a lado sem, muitas vezes, se encontrar.
 Miami é quase o oposto. Funciona. É organizada. Tem segurança, previsibilidade e uma qualidade de vida invejável.
 Mas, às vezes, sinto que lhe falta aquilo que não se constrói com concreto nem planejamento. História. Memória. Alma.
 Não pretendo descobrir qual cidade é melhor. Seria uma pergunta impossível de responder.
 Quero apenas compartilhar com vocês as pequenas histórias que vivi entre elas.
 Um vendedor de milho conversando com duas meninas na praia. Um café da manhã que virou uma reflexão sobre o Brasil. Uma caminhada em Ipanema. Outra em Brickell.
 As diferenças, as semelhanças e, principalmente, as dúvidas de quem aprendeu a chamar duas cidades de casa.
 Talvez, ao final dessa série, eu finalmente descubra a resposta para aquela pergunta que me fazem há mais de vinte anos.
 Mas desconfio que continuarei respondendo com Tom Jobim.
 Porque algumas perguntas não existem para serem respondidas.
 Existem apenas para nos fazer pensar. 

Foto (Acervo pessoal): Henrique Pinheiro e Maritza Caneca.