Henrique Pinheiro *
* Economista e Produtor Executivo de Terra Revolta-João Pinheiro Neto, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor, filho de João Pinheiro Neto, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor, organiza o livro Crônicas que nunca contaram na escola e a série Entre Duas Cidades.
A frase parece impossível de ter sido pronunciada por Leonel Brizola. Mas foi.
Em 1994, ao comentar o golpe de 1937 e a implantação do Estado Novo, Brizola fez essa afirmação e acrescentou outra, talvez ainda mais surpreendente:
“O Estado Novo seria criado de qualquer forma, com, sem ou até mesmo contra Getúlio Vargas.”
Como um homem que dedicou a vida à democracia, enfrentou a ditadura militar, foi cassado, viveu longos anos no exílio e voltou ao Brasil para lutar pelas eleições diretas podia interpretar 1937 dessa maneira?
Essa pergunta merece ser feita sem preconceitos.
O Brasil de 1937 vivia uma profunda crise política. O mundo assistia ao avanço dos regimes autoritários na Europa. O medo do comunismo crescia, a Ação Integralista Brasileira ganhava força e o governo utilizou o falso Plano Cohen para justificar o fechamento do regime. Nada disso elimina o caráter autoritário do Estado Novo. Houve censura, fechamento do Congresso, suspensão das eleições, perseguição aos opositores e concentração de poder nas mãos de Getúlio Vargas.
Mas Brizola enxergava outra dimensão daquele período.
Para ele, Getúlio representava a construção do Estado nacional moderno. Foi durante seu governo que o Brasil acelerou a industrialização, fortaleceu empresas estratégicas, organizou a legislação trabalhista e incorporou milhões de trabalhadores ao mundo dos direitos sociais. Era essa herança que Brizola e João Goulart procurariam aprofundar décadas depois.
Meu pai, João Pinheiro Neto, ministro do Trabalho e da Reforma Agrária de João Goulart, também nunca falou mal de Getúlio. Dizia que, quando jovem, ouvia uma frase repetida por toda parte:
” Era Deus no céu e Getúlio na Terra.”
Não era uma defesa da ditadura. Era o retrato da popularidade de um governante que, pela primeira vez, fez o Estado olhar para quem trabalhava.
João Goulart, herdeiro político de Vargas, também valorizava esse legado de industrialização, soberania nacional, legislação trabalhista e inclusão social. Nem por isso deixou de ser um democrata.
É justamente aí que está o desafio histórico.
Como dois dos maiores democratas da história brasileira, Brizola e Jango, conseguiram reconhecer os avanços sociais produzidos por Vargas sem deixar de compreender que 1937 representou uma ruptura democrática?
Hoje parece comum dividir personagens históricos entre heróis e vilões. A História, porém, raramente é tão simples.
Ŕeconhecer que o Estado Novo suprimiu liberdades políticas não impede reconhecer que, naquele mesmo período, o Estado brasileiro passou a assumir responsabilidades sociais inéditas. Da mesma forma, reconhecer esses avanços sociais não significa justificar a censura, o fechamento do Congresso ou a suspensão das eleições.
Talvez seja exatamente essa tensão que Brizola nos deixou como legado.
A pergunta não é se devemos defender 1937. A pergunta é como homens profundamente comprometidos com a democracia, como Leonel Brizola e João Goulart, interpretavam aquele período de maneira tão diferente da maioria dos democratas de hoje.
Não escrevo este artigo para responder essa pergunta.
Escrevo porque a História brasileira
continua nos desafiando a fazê-la.
Foto: Leonel Brizola, Getúlio Vargas e Neusa Goulart Brizola.


