A Terra Nunca Deixou o Poder
Rio de janeiro

A Terra Nunca Deixou o Poder

A Terra Nunca Deixou o Poder Rio de janeiro
Henrique Pinheiro *
  Economista e produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária, filho de João Pinheiro Neto e autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor,  organiza o livro Crônicas que nunca contaram na escola.

Revolução para uns. Golpe para outros. O certo é que 1930 encerrou a República dos barões do café.
Durante mais de quatro décadas, a economia brasileira girou em torno da monocultura cafeeira. A riqueza produzida pelo café fortaleceu uma elite agrária que dominava a política nacional. Ferrovias eram construídas para escoar a produção, bancos internacionais financiavam a compra dos excedentes para sustentar artificialmente os preços e o Estado organizava sua política econômica em torno de um único produto.
O sistema parecia sólido.
Até que, em 1929, os bancos internacionais deixaram de financiar essa engrenagem.

 A quebra da Bolsa de Nova York secou o crédito externo, o preço do café despencou e a República Velha perdeu sua sustentação econômica. A ruptura de 1930 foi também o colapso de um modelo excessivamente dependente do mercado internacional.
Getúlio Vargas compreendeu que um país não poderia depender exclusivamente da exportação de um único produto. Apostou na industrialização, fortaleceu o papel do Estado e procurou ampliar o mercado interno.
 Mas havia uma estrutura que permaneceu praticamente intacta. A terra.
Desde as sesmarias do período colonial, passando pela Lei de Terras de 1850, pela República dos barões do café e chegando ao século XX, a concentração da propriedade rural continuou sendo uma das características mais permanentes da formação brasileira.
Em 1964, meu pai, João Pinheiro Neto, assumiu a presidência da SUPRA (Superintendência da Política Agrária), órgão criado pelo governo João Goulart para executar a reforma agrária. Ao apresentar o projeto de desapropriação de terras às margens de rodovias, ferrovias e obras públicas, tocou em um dos temas mais sensíveis da história do Brasil. Poucos dias depois, veio o golpe militar. A reforma agrária foi interrompida antes mesmo de começar.
Vinte anos depois, surgia a UDR (União Democrática Ruralista), organização criada para defender os interesses dos grandes proprietários rurais e se opor às propostas de reforma agrária que voltavam ao debate nacional. Seu primeiro presidente foi Ronaldo Caiado, hoje candidato à Presidência da República.
Não escrevo este artigo para discutir uma candidatura.
Escrevo porque ela nos obriga a revisitar uma pergunta que atravessa mais de cinco séculos da nossa história.
Quem exerce, de fato, o poder no Brasil?
Hoje voltamos a assistir às consequências de uma economia fortemente dependente do mercado externo. As tarifas impostas pelos Estados Unidos mostram, mais uma vez, como decisões tomadas fora de nossas fronteiras podem afetar diretamente setores estratégicos da economia brasileira.
A história de 1930 deveria servir de alerta.
O agronegócio é uma das maiores riquezas do Brasil e continuará sendo. A questão não é essa.
A questão é saber se aprendemos a lição deixada pela crise de 1929: nenhuma nação pode depender excessivamente de um único setor econômico, por mais eficiente que ele seja. Desenvolvimento exige indústria competitiva, inovação tecnológica, ciência e um mercado interno capaz de sustentar o crescimento quando o mundo deixa de comprar.
Mudamos de Império para República. Passamos por 1930, pelo golpe de 1964 e pela redemocratização.
Mas a terra continua ocupando um lugar central na política brasileira.
UMudamos de bandeira, de Constituição, de presidentes e de regimes. Mas talvez a terra continue sendo a chave para compreender quem realmente exerce o poder no Brasil.
 Foto (Acervo pessoal): Henrique Pinheiro e seu pai, João Pinheiro Neto, ex-ministro do Trabalho e ex-presidente da Superintendência da Reforma Agrária no Governo Jango.