março 6, 2026
Rio de janeiro

A Cidade Mercadoria e os Limites da Modernização

A Cidade Mercadoria e os Limites da Modernização Rio de janeiro
Arlindenor Pedro*
* Professor de História, Sociologia e Filosofia,  editor do Blog Utopias Pós Capitalistas.

Em setembro de 2025, o arquiteto chinês Kongjian Yu morreu em um acidente aéreo no Pantanal brasileiro.

  Visionário, ele defendia as “cidades esponja”, capazes de integrar a água, a natureza e  a urbanização. Via no Brasil um celeiro de possibilidades, pela abundância de recursos naturais, para experimentar novas formas de habitar em diálogo com o ambiente. Sua morte soa como metáfora: A cidade capitalista, impermeável e predatória, precisa ser repensada.
Debruçando-nos sobre a questão percebemos que a cidade moderna não é a  herdeira das antigas urbes religiosas ou políticas, mas sim, fruto da lógica do capital.
    O relógio, as fábricas e a disciplina social moldaram espaços para a produção e o concreto, uniforme e cinzento, apagou singularidades históricas, transformando o território das urbes em superfície de valorização.
   Durante o século XX, parecia haver uma promessa: Emprego industrial, habitação em massa, consumo popular.
   Mas o fato é que a mesma modernização que integrou milhões expulsou outros tantos com a automação e a financeirização.
Hoje, com o desemprego estrutural, as populações em situação de rua e as favelas tornaram-se o rosto visível da crise urbana.      As cidades ficaram caras demais. Imigrantes, em metrópoles, como Paris, Londres e Los Angeles, vivem o paradoxo da integração negada: Mão de obra barata, mas marginalizada, como ameaça, que vive em guetos explosivos .
   Já Nova York, após quase falir nos anos 1970, reinventou-se como vitrine global, reprimindo os pobres em nome da segurança financeira.
    Com ela surge o conceito de cidade mercadoria. Barcelona, Veneza, Berlim e o Porto Maravilha, no Rio, seguiram caminhos semelhantes, transformando territórios em espetáculo ou ativo financeiro.
A Ásia acelerou esse processo. Xangai, Shenzhen e Pequim ergueram skylines futuristas, mas às custas de dívidas e cidades fantasmas.
   Ao mesmo tempo, a crise climática revela a insustentabilidade do modelo: emissões de carbono, ilhas de calor, enchentes e secas expõem a vulnerabilidade urbana. O concreto virou o símbolo do progresso, afastando mais ainda o homem da natureza.
   Como diria Anselm Jappe: o concreto é hoje a pele do capitalismo.
O desafio, agora, é imaginar alternativas, pois este modelo está claramente em colapso: Comunidades menores, agricultura urbana, autossuficiência energética e espaços comuns fora da lógica da mercadoria.
   A morte de Yu no Brasil é um alerta.               Reinventar a cidade como espaço de vida, e não como mercadoria, é talvez a única utopia realista de nosso tempo. Uma utopia que só poderá se concretizar plenamente em outro tipo de sociedade!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *