março 7, 2026
Rio de janeiro

O custo de uma guerra anunciada.

O custo de uma guerra anunciada. Rio de janeiro
      Henrique Pinheiro *
       * Economista e produtor executivo de cinema.

O centro do conflito que envolve a Venezuela não é ideológico nem humanitário.

    É petróleo. As maiores reservas comprovadas do planeta são o verdadeiro eixo de poder dessa crise — e é exatamente por isso que a atuação dos Estados Unidos assume contornos de grave imprudência estratégica.
Não se trata apenas de sanções econômicas.
    Houve intervenção militar.
    Bloqueios navais no Caribe, operações encobertas, apoio direto e indireto a ações armadas, pressão militar contínua e demonstrações explícitas de força configuram um cenário de guerra não declarada.
     A mensagem é cristalina: O controle do petróleo venezuelano será imposto, se necessário, pela força.
O petróleo venezuelano nunca foi apenas uma commodity.
     Ele sustenta o arranjo do petrodólar, pilar da hegemonia monetária americana.
      Controlar a energia significa controlar a moeda, os fluxos financeiros e o equilíbrio do poder global.
Ao combinar coerção financeira com intimidação militar, Washington abandona a diplomacia e normaliza o uso do dólar como arma. Não é negociação, é imposição.
    E imposição, corrói a confiança.
O problema é que esse jogo não termina em Caracas.
China e Rússia já compreenderam que o petróleo fora do dólar não é provocação, é estratégia. A resposta americana, longe de conter esse movimento, o acelera.
     O dólar torna-se instrumento de guerra, o petróleo, em linha de frente e a ordem monetária começa a se fragmentar.
Nesse contexto, ganha relevância a oposição crescente dos Estados Unidos ao avanço do BRICS.
    A tentativa do bloco de criar mecanismos próprios de financiamento, comércio e até uma moeda de referência alternativa ao dólar passou a ser tratada por Washington como ameaça direta à sua supremacia econômica.
A reação é previsível. Desestimular, dividir e enfraquecer o bloco antes que ele amadureça.
    O cerco à Venezuela, detentora de enormes reservas energéticas e com potencial,   fornecedora estratégica ao Sul Global, encaixa-se nessa lógica. Não se trata apenas de isolar um país, mas de enviar um aviso aos que cogitam aderir a uma arquitetura financeira fora da órbita americana.
Ao atacar simultaneamente o petróleo, a moeda e os arranjos multilaterais emergentes, os Estados Unidos adotam uma postura defensiva disfarçada de força.
    O paradoxo é evidente. Quanto mais tentam conter a multipolaridade, mais contribuem para acelerá-la.
É nesse ponto que o reflexo chega ao Brasil.
Como produtor relevante de petróleo e economia sensível a choques externos, o Brasil poderá sentir os efeitos dessa instabilidade, na pressão cambial, inflação importada e na volatilidade nos preços de energia.               Esses impactos não pedem autorização política — chegam pela bomba de combustível e pela conta de luz.
Em 2026, isso poderá ter consequência eleitoral. O eleitor não vota em geopolítica, mas pune quem não consegue proteger seu poder de compra. Política externa, quando mal calculada, vira custo doméstico.
Persistir na militarização do petróleo e na politização do dólar é brincar com a estrutura que sustenta o próprio sistema global. Impérios raramente caem por fraqueza — caem por excesso de força. Quando a moeda vira arma, o barril vira alvo e o mundo se reorganiza, os mercados reagem, os países se protegem e os eleitores cobram. O resto é retórica.