março 6, 2026
Rio de janeiro

Os anos de Banco Boavista

Os anos de Banco Boavista Rio de janeiro
   Henrique Pinheiro *
  * Economista e produtor executivo de cinema.
   Quando cheguei para a entrevista no Banco Boavista,  em 1986. antes mesmo de qualquer conversa, o prédio já havia decidido por mim.
   Projetado por Oscar Niemeyer em 1946, o edifício era um manifesto silencioso da arquitetura moderna brasileira.
   A fachada curva, ondulada, feita de tijolos de vidro, deixava a luz invadir o interior e criava um ambiente aberto, quase arejado — um contraste absoluto com o Banco Safra, onde salas revestidas de madeira escura impunham solenidade e distância.
Aceitei a proposta sem hesitar.
   Fui alocado na mesa de captação, área que, anos depois, ganharia o nome de private banking.
    Ali, o ofício exigia mais do que números. Exigia postura, educação, sensibilidade e a capacidade de estabelecer vínculos de confiança com a clientela mais abastada do banco.
 ..Era um trabalho moldado tanto pela técnica quanto pelo comportamento.
O Banco Boavista tinha uma característica rara. Era, de fato, familiar.
    Os donos circulavam pelos corredores, cruzavam conosco diariamente, criando a sensação — cada vez mais rara no sistema financeiro — de pertencimento.
   Não éramos apenas funcionários.
   Éramos parte de uma engrenagem viva.
Atendi clientes históricos, amigos próximos dos controladores,  parentes dos próprios banqueiros.
   Um dia, fui chamado à diretoria, instalada no último andar, junto à cobertura com vista privilegiada para a Igreja da Candelária. A paisagem era tão imponente quanto simbólica.
Na sala de reuniões, encontrei Jorge Guinle. Figura lendária das colunas sociais, o “Jorginho”, como era conhecido, confiou-me a administração de sua fortuna pessoal. Foi uma das missões mais gratificantes da minha trajetória — não pelo patrimônio envolvido, mas pela amizade que nasceu dali.
Suas histórias, seu olhar sobre o mundo e sua inteligência afiada dariam, sozinhos, um livro inteiro. E darão. Falarei sobre ele, no meu próximo artigo, que é, o quinto capítulo do livro que escrevo, com o título ” Crônicas de um mercado sem pudor “.