março 7, 2026
Rio de janeiro

Juros altos: Quando a dívida vira destino

Juros altos: Quando a dívida vira destino Rio de janeiro
  Henrique Pinheiro *
   Economista e Produtor Executivo de Cinema.

Reportagem, publicada recentemente,  em  O Globo, revela dados do Banco Central que mostram que as dívidas já consomem quase metade da renda das famílias brasileiras.

      O endividamento atingiu 49,8% do rendimento anual, um número que dispensa adjetivos.
    É o retrato cru de um país financeiramente sufocado.
Com juros próximos de 15% ao ano, o crédito deixou de ser instrumento de organização da vida para se transformar em armadilha permanente.
     A reportagem de O Globo descreve famílias que usam cartão de crédito para comprar comida, remédios e itens básicos.      O salário termina antes do mês.
    A dívida começa antes do fim do dia.
      Enquanto o discurso técnico insiste em “expectativa de alívio” com uma possível queda da Selic, a realidade segue implacável.
      O endividamento cresce, a inadimplência permanece elevada e o crédito caro empurra os mais vulneráveis para linhas cada vez piores. O sistema opera como um funil: a renda sobe pouco, mas o juro nunca cede no mesmo ritmo.
Os bancos seguem protegidos por spreads elevados e lucros recorrentes. O risco não é deles. O risco é transferido. O rentismo prospera. O trabalhador aperta o cinto — até onde dá.
Essa engrenagem não é neutra. Ela favorece a quem vive de renda financeira e penaliza quem vive do trabalho. Naturaliza o aperto, individualiza a culpa e esconde que o problema é estrutural.
No passado, a exploração era explícita.       Hoje, ela é legalizada, estatística e contratual. Não há correntes, mas há juros compostos. Não há senzala, mas há endividamento crônico.
Como mostra a reportagem de O Globo, essa não é apenas uma crise econômica. É uma forma moderna, silenciosa e cruel de escravidão — aceita, normalizada e apresentada como inevitável.