março 6, 2026
Rio de janeiro

O Mínimo, o Máximo e a República dos Penduricalhos

O Mínimo, o Máximo e a República dos Penduricalhos Rio de janeiro

    Henrique Pinheiro *  

     * Economista e Produtor Executivo de Cinema.  

 

     Somos 215 milhões de habitantes no Brasil. Desses, aproximadamente 70 milhões vivem com R$ 1.412 por mês — o valor do salário mínimo. Outros 40 milhões vivem com até R$ 2.824 mensais, dois salários mínimos de renda bruta. Somados, 110 milhões de brasileiros sobrevivem com renda entre R$ 1.412 e R$ 2.824 por mês.
      Isso significa que mais da metade da população brasileira vive com até dois salários mínimos. Esse é o Brasil real — o Brasil que paga imposto indireto alto, que depende de serviços públicos precários e que convive com crédito caro.
       Entre dois e cinco salários mínimos — renda mensal entre R$ 2.824 e R$ 7.060 — estão cerca de 43 a 47 milhões de brasileiros. É a classe média comprimida, pressionada pela inflação de serviços, pelo custo da moradia e pela insegurança fiscal permanente.
        Acima de dez salários mínimos — mais de R$ 14.120 por mês — restam algo entre 6,5 e 10 milhões de brasileiros  em um país de 215 milhões. A pirâmide é larga na base e estreita no topo. Muito estreita.
        Agora subamos ao teto. O teto constitucional do funcionalismo gira em torno de R$ 44 mil mensais. Ainda assim, cerca de 53 mil servidores recebem acima desse valor por meio de verbas classificadas como indenizatórias — os chamados “penduricalhos”.
         São 53 mil pessoas. Enquanto isso, 70 milhões vivem com R$ 1.412. Para cada servidor acima do teto, existem cerca de 1.300 brasileiros vivendo com um salário mínimo. Não é retórica. É matemática.
         Em um país onde 110 milhões vivem com até R$ 2.824 por mês, o teto precisa ser teto. Porque quando o mínimo é permanentemente vigiado e o máximo é permanentemente flexibilizado, o problema deixa de ser apenas fiscal. Passa a ser institucional — e, no limite, moral.
        A República não pode naturalizar a exceção. Indenização não pode se tornar complemento permanente de renda. Transparência não pode ser discurso eventual. O Estado existe para reduzir assimetrias, não para cristalizá-las.
      Sem confiança pública, não há reforma tributária, administrativa ou fiscal que se sustente.  

      Não se trata de demonizar servidores, mas de preservar a credibilidade das instituições. O mínimo precisa ser digno. O máximo precisa ser respeitado. Essa é a matemática essencial de qualquer República.