março 7, 2026
Rio de janeiro

1960: quando éramos maiores que a Coreia.

1960: quando éramos maiores que a Coreia. Rio de janeiro

       Henrique Pinheiro * 

       Economista e produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária.

     A visita presidencial a Seul reacende uma pergunta inevitável: como dois países que partiram de níveis semelhantes tomaram caminhos tão diferentes?  

     A viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Coreia do Sul, acompanhada de fóruns empresariais e anúncios de cooperação em tecnologia, fármacos, agroindústria e setor aeroespacial, vai além da agenda diplomática. Ela nos obriga a revisitar 1960. Naquele início de década, o Brasil tinha economia maior, parque industrial relevante e mercado interno robusto.  

     A Coreia do Sul saía devastada pela guerra, com infraestrutura destruída e renda per capita inferior à brasileira. Poucos imaginariam que, seis décadas depois, os papéis estariam invertidos. Hoje, a Coreia do Sul é potência tecnológica, líder em semicondutores, construção naval, baterias e inovação industrial. O Brasil permanece forte no agronegócio e na mineração, mas distante das cadeias globais de maior valor agregado.  

     A diferença não foi geográfica. Nem cultural. Foi estratégica. A partir dos anos 1960, a Coreia adotou política coordenada de desenvolvimento sob o governo de Park Chung-hee. Investiu maciçamente em educação básica universal, ensino técnico e formação em engenharia. As universidades foram alinhadas às necessidades industriais. O ensino de matemática e ciências tornou-se prioridade nacional. Educação deixou de ser política social isolada e passou a ser instrumento de competitividade. Empresas como Samsung Electronics e Hyundai Motor Company não surgiram por acaso. Foram resultado de um projeto nacional articulado entre Estado, indústria e formação técnica.  

      No Brasil dos anos 70, também houve expansão educacional. A reforma do ensino de 1971 buscou ampliar o acesso e profissionalizar o ensino médio. Contudo, a massificação ocorreu com forte desigualdade regional e queda de qualidade. A profissionalização muitas vezes foi superficial e desconectada da indústria.      

      O regime brasileiro priorizou infraestrutura pesada, energia e indústria de base. A educação avançou em número, mas não se tornou eixo estruturante de um projeto exportador tecnológico.  

      Desenvolvimento exige continuidade e coerência. O dado é eloquente: em 1960, o PIB per capita brasileiro superava o sul-coreano. Hoje, o da Coreia é mais que o dobro do brasileiro.     

       A visita presidencial pode gerar acordos relevantes. Exportações, cooperação farmacêutica, parcerias aeroespaciais são positivas. Mas acordos comerciais não substituem projeto nacional. Sem ensino básico de qualidade, formação técnica robusta e engenheiros em escala, não há reindustrialização consistente, nem salto tecnológico, nem produtividade sustentável.  

     A Coreia decidiu investir em capital humano quando ainda era pobre. O Brasil preferiu adiar escolhas estruturais. A diferença entre 1960 e hoje não é fruto do acaso. É resultado de prioridade.  

     E a pergunta que permanece após a visita a Seul não é quantos memorandos foram assinados, mas se teremos coragem de colocar educação no centro do desenvolvimento — ou se continuaremos lembrando, década após década, que um dia já fomos maiores.