março 6, 2026
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Sirat: intensidade, simbolismo e um cinema que desafia o espectador

Sirat: intensidade, simbolismo e um cinema que desafia o espectador cinema

Mesmo para quem é cinéfilo, Sirāt é uma experiência intensa. Não se trata de um filme de fácil assimilação — exige atenção, sensibilidade e, sobretudo, disposição para mergulhar em uma narrativa que não entrega respostas prontas.

Classificado como drama e road-movie, o longa de 2025 é dirigido por Óliver Laxe e co-escrito com Santiago Fillol. A obra aposta em uma linguagem contemplativa, simbólica e, em muitos momentos, minimalista. O espectador acompanha longos trechos da jornada do protagonista ao lado de novos amigos que seguem pela estrada rumo a raves no deserto. A câmera permanece ali, insistente, quase hipnótica, registrando deslocamentos, silêncios e olhares.

Para alguns, essa escolha estética é poderosa. Para outros, pode soar excessiva.

Um caminho estreito entre o material e o espiritual

O próprio título carrega uma camada simbólica importante. “Sirāt”, palavra de origem árabe, refere-se ao “caminho estreito” que separa o mundo material do espiritual — metáfora que atravessa toda a narrativa. O filme não é apenas sobre uma viagem física, mas sobre travessias internas, perdas, escolhas e sobrevivência.

No entanto, a trama não se explica de forma didática. Em determinados momentos — como na passagem de tropas do governo pela estrada — o espectador pode se perguntar qual é exatamente o contexto político ou social daquela presença. O roteiro não oferece respostas claras. A sensação é de que há um mundo em tensão ao redor, mas o foco permanece na experiência subjetiva dos personagens.

Essa opção narrativa pode provocar estranhamento. Para quem não está habituado a filmes que exigem leitura simbólica e conhecimento da linguagem cinematográfica, a sensação pode ser de estar “perdido” diante do que se vê na tela.

Solidariedade e pertencimento

Um dos elementos mais perceptíveis é a construção de solidariedade dentro do grupo que viaja para as festas no deserto. Ainda que cada personagem carregue sua própria história e seus próprios conflitos, existe uma espécie de comunidade improvisada que se forma na estrada. Talvez aí esteja um dos recados centrais: em meio ao caos externo — político, social ou existencial — o que resta é o vínculo humano.

Mas afinal, o que o diretor e o roteirista quiseram transmitir?

A resposta não é única. Sirāt parece ser daqueles filmes que pedem revisita. A cada nova exibição, detalhes podem ganhar outro significado. É um cinema que trabalha com camadas — algumas explícitas, outras sutis.

Produção de peso e reconhecimento internacional

O impacto aumenta quando o espectador descobre que entre os produtores estão Pedro Almodóvar e Agustín Almodóvar, nomes centrais do cinema espanhol contemporâneo. A assinatura dos irmãos Almodóvar adiciona prestígio e reforça o caráter autoral da obra.

O filme conquistou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e chega à temporada de premiações como representante forte da Espanha. Está na disputa do Oscar 2026 em duas categorias: Melhor Filme Internacional e Melhor Som — este último especialmente elogiado pela imersão sonora que potencializa a experiência sensorial da narrativa.

Comparações inevitáveis

Na corrida pelo Oscar, comparações são naturais. Muitos espectadores brasileiros defendem que O Agente Secreto é superior em narrativa, ritmo e construção dramática. De fato, o cinema brasileiro tem mostrado força e maturidade técnica nos últimos anos.

Se vencerá ou não, só a Academia dirá. Mas o fato é que Sirāt provoca — e talvez esse seja seu maior mérito. Não busca agradar a todos. Não entrega entretenimento convencional. É um filme que desafia, inquieta e divide opiniões.

Um filme para sentir, mais do que entender

Sirāt não é uma obra para consumo rápido. É um filme que pede silêncio, reflexão e, possivelmente, mais de uma sessão para ser plenamente absorvido. Para alguns, será profundo e arrebatador. Para outros, excessivamente lento e hermético.

Mas indiferente, dificilmente alguém ficará.

E no cinema autoral, isso já diz muito.

Redação: Isabel Almeida