O teatro das delações e a permanência dos verdadeiros donos do Brasil
Rio de janeiro

O teatro das delações e a permanência dos verdadeiros donos do Brasil

O teatro das delações e a permanência dos verdadeiros donos do Brasil Rio de janeiro

    Henrique Pinheiro * 

    * Economista e Produtor Executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária, autor do livro Crônica de um Mercado sem Pudor.  

 

    O Brasil de Jango, Brizola, Darcy Ribeiro e Celso Furtado foi abortado — e nunca substituído.
     Delações premiadas transformaram-se em arma política e espetáculo de massa no Brasil contemporâneo. Vendidas como terremotos institucionais, funcionam mais como fogos de artifício: iluminam o céu por alguns minutos enquanto as fundações reais do poder permanecem intactas.  

    A cada nova delação, repete-se um roteiro conhecido: um culpado conveniente, revelações vazadas, indignação seletiva e plateias mobilizadas. 

    O país acompanha como quem assiste a uma novela — esperando o capítulo decisivo que finalmente mudará tudo. Não muda. Porque não é para mudar. Enquanto a sociedade discute nomes e versões, trilhões continuam sendo transferidos silenciosamente por mecanismos financeiros que jamais ocupam o centro do debate público. Juros da dívida, concentração bancária e dependência externa seguem fora do foco.  

    O Brasil é mantido ocupado com as peças para nunca olhar o tabuleiro.  

     Essa lógica consolidou-se em 1964. O golpe militar não derrubou apenas João Goulart. Derrubou um projeto de país que ousava enfrentar as raízes da desigualdade brasileira.  

     Jango falava em reformas de base, soberania e distribuição de renda. Ao seu redor estavam algumas das maiores inteligências públicas que o Brasil já produziu.  

    Darcy Ribeiro sonhava com uma revolução educacional e civilizatória. Celso Furtado planejava um desenvolvimento autônomo capaz de romper a dependência estrutural. Santiago Dantas defendia uma política externa independente. Leonel Brizola incendiava multidões com a ideia de que o Brasil poderia finalmente pertencer aos brasileiros.  

    Havia um horizonte real de transformação. E havia também os que trabalhavam longe dos palanques, tentando mexer na engrenagem mais sensível: a terra. João Pinheiro Neto — então superintendente da SUPRA — estava entre eles. Acreditava que reformar a estrutura fundiária era condição para qualquer projeto sério de justiça social. Num país construído sobre o latifúndio desde a Colônia, mexer na terra significava mexer no próprio coração do poder. 

     Era um Dom Quixote dos anos 60 — mas os gigantes que enfrentava não eram imaginários. Eram reais, organizados e profundamente entranhados nas instituições. A resposta veio rápida e implacável: cassações, exílio, silenciamento e destruição de trajetórias públicas. Não era apenas uma mudança de governo.  

     Era a interdição de um futuro. O Brasil que poderia ter emergido daquele momento foi abortado antes de nascer. Em seu lugar consolidou-se um modelo de desenvolvimento subordinado e concentrador de renda, no qual crescimento não significava soberania nem inclusão.              Esse arranjo atravessou a redemocratização praticamente intacto. Tanques saíram de cena; mecanismos mais sofisticados entraram.  

      Hoje, crises políticas são administradas por instrumentos institucionais, econômicos e midiáticos muito mais eficientes. Não é preciso fechar o Congresso quando se pode neutralizar a política pela fragmentação e pela produção contínua de escândalos capazes de capturar a atenção nacional. 

      As delações premiadas encaixam-se perfeitamente nesse modelo. Produzem sensação de limpeza moral sem ameaçar as estruturas profundas.  

     Entregam culpados individuais, mas nunca questionam o sistema que os torna inevitáveis. O Brasil parece viver em permanente ebulição, quando na verdade opera numa estabilidade perversa. Governos caem, líderes são destruídos, reputações são reescritas — mas os centros reais de poder seguem incólumes, decidindo os rumos do país sem submeter-se ao voto popular.  

      Talvez nem seja xadrez, mas um jogo de damas rudimentar: peças vão sendo capturadas enquanto quem controla o tabuleiro permanece invisível.  

     Os verdadeiros vencedores não aparecem nas delações nem disputam eleições. Operam na interseção entre finanças globais, grandes conglomerados econômicos e instituições capazes de influenciar qualquer governo. O público recebe indignação periódica e a ilusão de justiça em movimento.  

       É entretenimento político de alta intensidade — catarse sem transformação. Sessenta anos depois, a sensação é que 1964 nunca terminou completamente. O país continua orbitando em torno daquela ruptura, incapaz de retomar o projeto interrompido.  

      O Brasil que Darcy imaginou educado e inclusivo, que Furtado planejou soberano, que Brizola mobilizou nas ruas e que Jango tentou conduzir permanece como hipótese histórica — um futuro proibido. Talvez o maior triunfo dessa estrutura tenha sido convencer gerações de que vivem em permanente mudança, quando apenas administram a continuidade. Delações passam. Escândalos passam. Governos passam.  

     O sistema permanece. E a pergunta que persiste é simples: que país seríamos hoje se aquele projeto de nação não tivesse sido esmagado antes de amadurecer?