A Travessia para o Mercado Internacional
Rio de janeiro

A Travessia para o Mercado Internacional

A Travessia para o Mercado Internacional Rio de janeiro

   Henrique Pinheiro * 

 * Economista e Produtor Executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária e autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor. 

O Banco Boavista já não era mais o mesmo. Agora atendia por Boavista Interatlântico, rebatizado após ser vendido por simbólicos valores a um novo bloco de controladores: Banco Espírito Santo, Crédit Agricole e Monteiro Aranha. Com a saída da família Paula Machado, encerrava-se ali um ciclo — e eu sentia isso com clareza.

Foi nesse clima de transição que recebi o telefonema de um cliente e amigo. Queria almoçar, conversar, entender como eu via aquela nova instituição. Fui direto: confessei meu desânimo com o mercado financeiro nacional, cansado de improvisos, atalhos e promessas frágeis.

Ele ouviu em silêncio e então soltou a frase que mudaria meu rumo: uma grande instituição americana estava contratando private bankers com o meu perfil — reputação, experiência e, sobretudo, uma carteira sólida de clientes ultra high net worth. Ricos, em resumo. Mostrei interesse. A entrevista foi marcada. Era o ano 2000.  

Eu tinha 39 anos , agora casado e com duas filhas pequenas, e uma bagagem pesada de mercado doméstico, crises e aprendizados. Sentia que estava pronto para algo maior.  

A instituição era a Merrill Lynch, que acabara de abrir um escritório de representação no Rio de Janeiro, depois de anos de sucesso em São Paulo.

A entrevista foi com um executivo estrangeiro, responsável pela operação no Brasil. Simpático, direto, objetivo. Gostou do meu perfil, perguntou sobre minha clientela e, sem rodeios, fez a pergunta que me desconcertou: quanto você quer ganhar? Pensei ter entendido errado o inglês. Ele repetiu. Parti do salário do Boavista Interatlântico, acrescentei um extra — afinal, eu estava trocando o certo pelo duvidoso. 

Ele não discutiu. Converteu o valor em dólares, apertou minha mão e perguntou quando eu poderia começar.
Saí atônito. Não regateou um centavo.

O trabalho era completamente novo. Agora eu precisava captar recursos em dólares, buscar brasileiros com contas no exterior e convencê-los a migrar para a Merrill Lynch. Entravam em cena minha persuasão, credibilidade e o argumento decisivo: uma instituição americana mais ágil, com mais opções de investimento e, sobretudo, mais segura.
Havia ainda um detalhe crucial: eu teria de prestar uma prova junto à FINRA (autoridade reguladora do setor financeiro)  para obter certificação como consultor financeiro nos Estados Unidos. Disseram que era simples, quase banal. Bastava estudar.

 Não era bem assim. Esse era apenas o começo da minha travessia definitiva para o mercado internacional.