José Maria Alkmim, a inteligência silenciosa da política mineira
Rio de janeiro

José Maria Alkmim, a inteligência silenciosa da política mineira

José Maria Alkmim, a inteligência silenciosa da política mineira Rio de janeiro

   Henrique Pinheiro *  

    * Economista e Produtor Executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária.  

   

    José Maria Alkmim nasceu em Bocaiúva, Minas Gerais, em 11 de junho de 1901, e morreu em Belo Horizonte, em 22 de abril de 1974.  

    Foi um dos políticos mais influentes e hoje menos lembrados da República brasileira no século XX. 

    Advogado, deputado, secretário de Finanças de Minas Gerais, líder do PSD, ministro da Fazenda de Juscelino Kubitschek e vice-presidente da República, sua trajetória atravessou  momentos decisivos da vida nacional.
    João Pinheiro Neto, em seu livro “Bons e Maus Mineiros” Editora Mauad 1996, traça dele um retrato singular. 

     Define-o como homem de educação impecável, apuro no vestir e inteligência arguta.  

     Juscelino Kubitschek o considerava um dos maiores políticos de sua geração.  

      Não era tribuno inflamado nem líder carismático de massas. Seu poder vinha da discrição, da lucidez e da habilidade nos bastidores.
      Foi no governo JK, em Minas Gerais, que Alkmim consolidou sua reputação administrativa.  

     Como secretário de Finanças, tornou-se referência de rigor e equilíbrio.  

    João Pinheiro Neto recorda,  em seu livro,  episódios que revelam seu humor fino e sua ironia precisa.  

     Ao ouvir que havia verba aprovada, mas não recursos em caixa, respondeu: “Certo, verba tem. O que não tem é dinheiro.”
      Em outra passagem, lembrada por João Pinheiro Neto, uma funcionária reclamou que não gozava férias havia dois anos.                Alkmim retrucou: “Minha senhora, o seu problema não é burocrático. É ginecológico. Procure um médico.” Era o humor seco mineiro, rápido, cortante, memorável.
      No plano nacional, Alkmim alcançou o centro do poder ao assumir o Ministério da Fazenda de Juscelino Kubitschek, entre 1958 e 1960.  

      Foi um período delicado. O país vivia as tensões entre o Plano de Metas, a construção de Brasília e o avanço inflacionário. Alkmim conduziu a pasta com sobriedade técnica e responsabilidade fiscal.
      Em 1964, sua trajetória ganhou contornos mais complexos. Após o golpe militar que depôs João Goulart, foi eleito vice-presidente da República de forma indireta pelo Congresso Nacional, na chapa de Humberto Castelo Branco.  

      Não houve voto popular. Sua escolha integrou o novo arranjo institucional imposto pelo regime militar.
      Esse episódio marca a ambiguidade de sua biografia. Homem oriundo do PSD democrático e ligado ao ciclo desenvolvimentista de JK, Alkmim aceitou integrar uma estrutura nascida da ruptura constitucional.  

       Como muitos moderados de sua geração, moveu-se entre a legalidade possível e os limites impostos pelo novo regime.
       Apesar disso, preservou a  reputação de um homem íntegro, culto e respeitado. Jamais foi figura de radicalismos.                        Representava uma tradição hoje rara: a do político técnico, prudente, avesso ao espetáculo.
       José Maria Alkmim não deixou a marca do carisma, mas deixou a da consistência.          Era um construtor silencioso da República.  

        Na memória de João Pinheiro Neto, José Maria Alkmim permanece  como um mineiro elegante, mordaz e eficiente. Na história do Brasil, merece ser lembrado como um dos últimos grandes artífices discretos da política nacional. 

     Foto (Divulgação): José Maria Alkmim.