Henrique Pinheiro *
* Economista e Produtor Executivo de Terra Revolta-João Pinheiro Neto, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor
A construção de Brasília, entre 1956 e 1960, talvez seja o maior projeto político e urbanístico da história brasileira.
Ao mesmo tempo em que simboliza modernização e ambição nacional, carrega contradições que até hoje moldam o país. De um lado, o feito. A interiorização do poder rompe com a lógica de um Brasil voltado para o litoral.
A nova capital no Planalto Central foi pensada para integrar o território, estimular o desenvolvimento do interior e afirmar um projeto de nação moderna. Era mais do que uma cidade, era uma ideia de futuro.
Havia também um componente político silencioso. Ao sair do Rio de Janeiro, o poder se afastava da pressão direta das ruas. O Palácio do Catete estava inserido numa cidade viva, com imprensa, sindicatos e manifestações.
Brasília nasce mais protegida, mais controlada, menos permeável ao calor imediato da sociedade. Uma capital mais técnica, menos política no sentido clássico.
Mas é justamente aí que começam as mazelas. A cidade planejada foi pensada para poucos. Funcionários públicos, elites administrativas, uma classe média organizada.
Não foi desenhada para absorver a massa de trabalhadores que a construiu. Esses ficaram de fora do plano. Surgem então as cidades satélites, espaços improvisados, sem infraestrutura adequada, que cresceram de forma desordenada ao redor do Plano Piloto.
O que era para ser uma cidade racional acabou gerando um cinturão de desigualdade.
A utopia modernista não previa o Brasil real. Brasília organizou o centro, mas empurrou a periferia para longe. Criou uma separação física e social entre quem decide e quem executa.
O desenho urbano virou também um desenho de desigualdade. E há um efeito político que permanece. Ao isolar a capital, o poder ganhou distância. Menos pressão direta, mais blindagem.
Isso pode ter dado estabilidade institucional, mas também criou um distanciamento entre Estado e sociedade que ainda se percebe. Brasília é, ao mesmo tempo, símbolo de ambição e de desconexão. Isso nos remete às reformas de Pereira Passos no início do século XX. Ao modernizar o centro do Rio de Janeiro, derrubando cortiços e abrindo avenidas, expulsou a população pobre que ali vivia. Sem alternativa, essa população foi empurrada para as encostas, dando origem e expansão à Favela da Providência.
O padrão se repete.
Em Brasília, a cidade planejada não absorveu os trabalhadores que a construíram.
Os candangos ficaram de fora do desenho oficial e foram empurrados para longe, para as cidades satélites, que cresceram sem planejamento e infraestrutura.
Em momentos diferentes, com linguagens distintas, a lógica é a mesma. Moderniza-se o centro. Expulsa-se a periferia.
O Brasil constrói seus símbolos avançando, mas frequentemente deixa para trás aqueles que os tornaram possíveis.
Foto (Wikipedia): Brasília, Eixo Monumental.


