Silvie Armand *
* Pesquisadora especializada em estudos da língua portuguesa, da equipe do canal YouTube Utopias Pós Capitalistas.
Escrevo de meu pequeno apartamento em Moscavide, Lisboa, onde o Tejo parece compreender o que o Sena já esqueceu.
Deixei Paris há alguns meses.
Uma cidade bela demais para quem ainda deseja respirar.
As ruas estavam tensas, cheias de olhos que evitavam se encontrar
O turista vê a luz de Montmartre, eu via, apenas, o cansaço e o medo que ela tenta esconder.
Nos muros, frases de revolta.
Nas praças, corpos apressados, como se a pressa fosse uma forma de sobrevivência. Paris espera!
A beleza ali já não consola: vigia!
Lisboa, em contraste, me acolheu com seu ar gasto e suas paredes que descascam sem vergonha.
O tempo aqui anda descalço.
O Tejo tem a calma dos que sabem esperar o retorno das marés.
Nos cafés, escuto os sotaques da memória: brasileiros, cabo-verdianos, angolanos.
Vozes que as caravelas espalharam e que agora voltam, multiplicadas.
A cidade se transforma numa concha que devolve o som do que tentou esquecer.
Penso que a cultura portuguesa se parece com a praia que aqui encontrei.
Lisboa é um lugar onde as ondas devolvem o que foi lançado ao além-mar. O mar tenebroso!
A língua, a música, os gestos :tudo retorna, mas… transformado.
O Atlântico não é apenas geografia: é um espelho de retorno e invenção.
Lisboa não será a mesma, depois destes tempos.
Tenho pensado na minha dedicação em destrinchar a arte neste tempo cansado.
Já não acredito que ela salve, mas ainda creio que possa retardar o esquecimento.
A arte é o respiro entre o gesto e o colapso. O repouso do guerreiro!
Um intervalo onde o humano ainda se reconhece antes de desaparecer.
Escrevo à noite, ouvindo o murmúrio do comboio e o cheiro do sal que sobe do rio.
Lisboa dorme devagar, como se sonhasse em outra língua.
E penso que talvez seja isso o que busco: um idioma que não precise gritar para ser escutado.
De Paris, trouxe a inquietude. De Lisboa, o silêncio.
E entre os dois, o ofício: observar o que resiste, recolher o que resta.
A cultura, no fim, é isso : uma tentativa delicada de continuar existindo quando o mundo já desistiu.
Lisboa me ensina que a melancolia pode ser também uma forma de lucidez.!
E é dessa lucidez triste, porém viva, que quero falar contigo,
leitor errante, estrangeiro de si mesmo.
Entre o Tejo e o Sena, continuo acreditando: a arte, mesmo exausta, ainda é o nosso último abrigo.
O fado que o diga!




