Milton Santos (1926–2001)
Rio de janeiro

Milton Santos (1926–2001)

Milton Santos (1926–2001) Rio de janeiro

 

  Henrique Pinheiro * 

   Economista e produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor.  

 

  Milton Santos foi  um dos maiores intelectuais brasileiros do século XX, mas passou boa parte da vida sendo mais reconhecido fora do Brasil do que dentro dele. 

  Preso e cassado pela ditadura militar em 1964, viveu 13 anos no exílio.   Enquanto aqui era visto como um intelectual incômodo, universidades da França, Canadá, Estados Unidos e África abriam espaço para suas aulas e pesquisas.
   Em 1994, veio a consagração internacional. Milton Santos recebeu na França o Prêmio Vautrin Lud, considerado o “Nobel da Geografia”.  

  Até hoje, é o único brasileiro a conquistar a maior premiação mundial da área.
  Mas Milton Santos nunca foi um geógrafo tradicional. Sua geografia não era a dos mapas decorados, dos rios ou das capitais ensinadas mecanicamente nas escolas. Milton estudava poder.
 Estudava como o dinheiro reorganiza cidades, como a pobreza é empurrada para as periferias e como a globalização concentra riqueza em poucos lugares enquanto abandona milhões de pessoas.
  Muito antes das redes sociais, da uberização ou da inteligência artificial, ele já alertava para um mundo onde tecnologia e finanças ampliariam desigualdades e tornariam o trabalho mais precário.
  Talvez por isso sua obra pareça tão atual hoje.
  E existe uma coincidência interessante nessa história. Algo parecido aconteceu com Celso Furtado (1920–2004). Um dos maiores economistas brasileiros do século XX, criador da Sudene e referência mundial nos estudos sobre subdesenvolvimento, também precisou deixar o país após o golpe de 1964 e acabou reconhecido primeiro no exterior. 

  O Brasil parece ter uma dificuldade histórica em reconhecer seus próprios intérpretes enquanto eles tocam no que mas a elite repudia, igual social.
  O mundo, muitas vezes, e o Brasil finge não entender.