A virada histórica de Brizola em 1982
Rio de janeiro

A virada histórica de Brizola em 1982

A virada histórica de Brizola em 1982 Rio de janeiro
Henrique Pinheiro *
  * Economista e produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor.
A eleição para o governo do Rio de Janeiro em 1982 foi um dos episódios mais simbólicos da redemocratização brasileira. Leonel Brizola voltou do exílio e venceu uma disputa que parecia improvável no início da campanha.
As primeiras pesquisas apontavam outro cenário: Miro Teixeira (PMDB), 30%,  Sandra Cavalcanti (PTB), 20%, Leonel Brizola (PDT),  2%, Moreira Franco (PDS), crescimento inicial.
Mas o Rio mudou de humor político durante a campanha.
O resultado final mostrou uma das maiores viradas eleitorais da história do estado: Leonel Brizola (PDT), 34,1%,  Moreira Franco (PDS),  30,6%, Miro Teixeira (PMDB), 21,4%,  Sandra Cavalcanti (PTB), 10,7%.
E, não foi uma vitória comum.
Brizola enfrentou a máquina do regime militar, a influência da Globo, o escândalo da Proconsult, o chaguismo e o velho udenismo carioca.
Sandra Cavalcanti carregava a sigla do PTB retirada de Brizola, mas não conseguiu convencer o eleitorado popular de que representava o verdadeiro trabalhismo de Vargas e João Goulart.
 Além disso, episódios de sua passagem pelo governo Carlos Lacerda, como o caso do Rio da Guarda, ainda pesavam sobre sua imagem política.
Miro Teixeira representava a poderosa estrutura política do governador Chagas Freitas, homem forte da política fluminense e ligado ao jornal O Dia, o mais popular do Rio naquele período.
Moreira Franco era o prefeito bem avaliado de Niterói, candidato apoiado pelo sistema político do regime e genro de Amaral Peixoto.
E Brizola?
Brizola construiu uma campanha profundamente popular.
Ao seu redor estavam Juruna, Agnaldo Timóteo cantando em carro aberto, Abdias do Nascimento, Bocaiúva Cunha, José Colagrossi, Sebastião Nery, Vivaldo Barbosa, Wladimir Palmeira, Eduardo Chuahy e muitos outros.
Era uma mistura de subúrbio, samba, exílio, cultura popular, trabalhismo e memória política.
Darcy Ribeiro chamava aquilo de “socialismo moreno”: um projeto popular, mestiço e profundamente brasileiro.
Quando vieram as denúncias da Proconsult e as suspeitas de manipulação da apuração, o Rio reagiu.
A vitória de Brizola acabou simbolizando mais do que uma simples mudança de governo. Representou o início do esgotamento político e moral do ciclo iniciado em 1964.
Naquele momento, o Rio de Janeiro voltou a funcionar como tambor político do Brasil.
   Foto (Acervo): Leonel Brizola, ovacionado pelos motoristas de táxi, no dia de sua posse, em 1983.