Henrique Pinheiro *
* Economista e Produtor Executivo de Terra Revolta-João Pinheiro Neto, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor.
Antes de Vladimir Herzog, de Stuart Angel e de tantos outros nomes que se tornaram símbolos da resistência à ditadura militar, houve o Padre Henrique.
O padre Henrique Pereira Neto tinha apenas 28 anos quando foi sequestrado, torturado e assassinado no Recife, em maio de 1969. Jovem sacerdote, ligado à juventude católica e aos movimentos sociais, era um dos mais próximos colaboradores de Dom Hélder Câmara, o arcebispo que se transformara em uma das vozes mais respeitadas na defesa dos direitos humanos no Brasil.
Aqueles eram os anos mais duros da ditadura. O AI-5 havia sido decretado poucos meses antes. Prisões arbitrárias, censura, perseguições políticas e torturas tornavam-se cada vez mais frequentes. Qualquer pessoa que defendesse a justiça social ou denunciasse os abusos do regime passava a ser vista como inimiga.
Dom Hélder Câmara estava entre os alvos preferenciais dos setores mais radicais do aparelho repressivo. Conhecido internacionalmente por sua atuação em favor dos pobres, denunciava a violência do regime e a desigualdade social. Como sua projeção internacional dificultava uma ação direta contra ele, seus colaboradores passaram a sofrer ameaças constantes.
Foi nesse contexto que Padre Henrique foi escolhido como alvo.
Na noite de 26 para 27 de maio de 1969, ele foi sequestrado por homens ligados aos grupos de repressão. Seu corpo foi encontrado no dia seguinte em um terreno na Cidade Universitária do Recife. Os sinais de tortura eram evidentes. As circunstâncias do crime deixavam claro que não se tratava de um assassinato comum, mas de uma execução política.
A mensagem era inequívoca: intimidar Dom Hélder Câmara e todos aqueles que ousavam permanecer ao lado dos mais pobres e denunciar os abusos da ditadura.
Mas o efeito acabou sendo o contrário.
A morte de Padre Henrique chocou Pernambuco, mobilizou setores da Igreja Católica e ampliou a denúncia internacional sobre a violência praticada pelo regime militar brasileiro. Seu nome passou a simbolizar a resistência de uma Igreja que, progressivamente, se afastava do apoio dado ao golpe de 1964 e assumia a defesa dos perseguidos.
Décadas depois, o crime continua sendo uma ferida aberta na história brasileira. Como aconteceu em tantos outros casos da ditadura, a responsabilização dos autores jamais ocorreu de forma plena. A impunidade tornou-se mais uma marca daquele período.
Lembrar o Padre Henrique não é apenas recordar de uma vítima. É preservar a memória de uma época em que pensar diferente podia custar a liberdade, a integridade física e a própria vida.
Num momento em que ainda existem vozes que relativizam ou negam os crimes da ditadura, sua história permanece atual. Ela nos lembra que a democracia não é um presente permanente.
É uma construção diária, feita por pessoas que tiveram a coragem de enfrentar o medo para defender a dignidade humana.
Padre Henrique morreu aos 28 anos.
Seu assassinato pretendia espalhar o silêncio. Mas sua memória continua falando.
E, continuará falando enquanto houver quem se recuse a esquecer.
Foto (Google): Divulgação.


