Arlindenor Pedro *
* Professor de História, Filosofia e Sociologia, editor do Blog Utopias Pós Capitalistas.
Nos últimos anos, eu e o Blog Utopias Pós Capitalistas concentramos boa parte de esforços na crítica da sociedade da mercadoria. Inspirados principalmente na tradição inaugurada por Robert Kurz e desenvolvida por autores como Moishe Postone, Roswitha Scholz, Norbert Trenkle, Anselm Jappe, Marildo Menegat, dentre outros. Esse percurso revelou-se fundamental para entendermos a natureza da crise estrutural do capitalismo e romper com a ilusão de que suas instituições representam o destino inevitável da humanidade.
Essa investigação permanece ainda indispensável. Entretanto, o aprofundamento da crise civilizatória que caracteriza o século XXI exige um deslocamento do nosso próprio horizonte de pesquisa. Precisamos avançar mais: a financeirização da economia, a captura da atenção pelas plataformas digitais, a expansão da inteligência artificial, o poder crescente das Big Techs, a devastação ambiental, a crise das democracias liberais, as guerras permanentes e as múltiplas formas de barbárie indicam que já não estamos diante de uma simples crise econômica. O que se esgota diante de nossos olhos é uma forma histórica de organizar a vida humana.
Diante desse cenário, limitar a reflexão às contradições internas da sociedade da mercadoria já não basta. A crítica continua necessária, mas deixou de ser suficiente. Se queremos pensar seriamente a superação do capitalismo, precisamos também investigar quais outras formas de vida a humanidade foi capaz de construir antes, durante e para além da lógica da mercadoria e que ainda estão vivas e resistentes Em outras palavras, a crítica da economia política precisa ampliar seu campo de investigação e dialogar com experiências históricas que escaparam, total ou parcialmente, à racionalidade do valor. Essas experiências são fundamentais quando é preciso apontar para uma nova forma de existência entre os homens que suplante os conceitos da barbarie propostos pelas forças conservadoras e reacionárias da sociedade. Em suma: é necessário elaborar os conceitos mínimos que nos ajudem a pensar o futuro. E nesse sentido olhar para os erros e acertos do passado tem então um papel fundamental.
Foi essa percepção que me levou à aproximação de três autores provenientes de tradições intelectuais distintas: Robert Kurz, Pierre Clastres e Eduardo Viveiros de Castro. À primeira vista, suas obras parecem tratar de problemas diferentes. No entanto, quando lidas em conjunto, revelam um campo de reflexão extraordinariamente fértil para pensar os desafios do presente.
Sem dúvidas Robert Kurz oferece uma das críticas mais profundas da sociedade produtora de mercadorias. Sua obra demonstra que o capitalismo não pode ser reduzido a um sistema de exploração econômica, mas deve ser compreendido como uma forma social historicamente determinada que organiza o conjunto da existência em torno da valorização do valor. O trabalho abstrato, o dinheiro, a mercadoria e o Estado em seus escritos deixam de aparecer como instituições neutras para revelar seu caráter histórico e transitório, próprio de uma civilização que alcança seus limites estruturais. E isto é muito importante para quem deseja conhecer com profundidade a crise estrutural do capitalismo contemporâneo.
Assumir essa perspectiva trazida por Kurtz implica em uma ruptura radical com grande parte dos conceitos que orientaram, ao longo do século XX, as lutas do trabalho contra o capital e que ainda permanecem presentes no chamado marxismo tradicional. Para Kurz, a emancipação humana não pode resultar da simples apropriação dos meios de produção pelo Estado nem da gestão planificada da economia, porque essas experiências preservaram as categorias fundamentais da sociedade da mercadoria. O colapso da União Soviética, a trajetória de Cuba e, por caminhos distintos, a experiência chinesa da economia socialista de mercado demonstram que a superação da propriedade privada, por si só, é a manutenção de categorias que dão suporte ao capitalismo como dinheiro, mercado, trabalho e Estado não dissolve o fetichismo da mercadoria e nem conduz à emancipação humana. Aprendemos com ele que enquanto subsistirem o trabalho abstrato, a produção de mercadorias e a valorização do valor como princípios organizadores da vida social, permanecerão também os fundamentos da própria lógica capitalista, ainda que sob diferentes formas institucionais.
Entretanto, assumir a crítica do valor não significa transformar Robert Kurz em um autor definitivo ou sua obra em um sistema fechado. O próprio método crítico exige acompanhar as transformações históricas do capitalismo. Desde sua morte, em 2012, assistimos ao surgimento de novas formas de acumulação que aprofundam tendências apenas esboçadas em seus escritos. A “economia da atenção” , por exemplo,desenvolvida por autores como Peter Schmidt, mostra que a captura sistemática da consciência humana converteu-se em um dos principais mecanismos de valorização do capitalismo digital. Ao mesmo tempo, a extraordinária expansão das Big Techs, da inteligência artificial, da mineração de dados e das plataformas digitais revela que a acumulação desloca-se cada vez mais para o controle da informação, da linguagem, da subjetividade e dos processos cognitivos e isto merece ser profundamente estudado e entendido.
Não estamos diante de um capitalismo diferente daquele analisado por Kurz, mas do aprofundamento histórico de suas contradições. À medida que o trabalho abstrato perde centralidade como fundamento da valorização, o sistema procura colonizar novas dimensões da existência humana. A atenção, os dados pessoais, as relações sociais, a criatividade e até mesmo os processos de tomada de decisão passam a integrar o circuito da acumulação. Compreender essas novas formas de dominação constitui uma das tarefas centrais de qualquer programa contemporâneo de crítica da sociedade da mercadoria.
Torna-se então relevante o pensamento e formulações de outros pensadores. Pierre Clastres, o conhecido pensador francês , deslocou radicalmente o foco da antropologia política e para nós merece ser estudado, dentro desta perspectiva . Em vez de investigar a origem do Estado, ele dedicou-se a compreender sociedades que organizaram sua existência precisamente para impedir a concentração permanente do poder. Sua formulação da “sociedade contra o Estado” rompe com uma das mais persistentes ilusões da modernidade: a de que toda sociedade evolui necessariamente para formas centralizadas de poder. Já Eduardo Viveiros de Castro realiza um deslocamento igualmente profundo. Seu perspectivismo ameríndio questiona os próprios fundamentos da ontologia ocidental. A separação entre natureza e sociedade, entre humanidade e animalidade, entre cultura e mundo natural, tão característica do pensamento moderno, revela-se apenas uma entre várias maneiras possíveis de compreender a realidade.
Quando colocados em diálogo, esses três autores iluminam dimensões complementares da mesma questão histórica. Kurz demonstra que a sociedade da mercadoria constitui uma forma histórica específica da vida social. Clastres revela que o Estado centralizado não representa um destino inevitável da organização política. Viveiros de Castro evidencia que a própria ontologia moderna está longe de ser universal. Em conjunto, eles mostram que nem a mercadoria, nem o Estado, nem a racionalidade ocidental constituem fundamentos permanentes da experiência humana.
É justamente aqui que identifico um novo programa de investigação para nós da Utopias Pós Capitalistas. Um novo campo que merece nossas reflexões. Durante décadas, concentramos nossos estudos na crítica das categorias fundamentais do capitalismo. Esse patrimônio continua indispensável. Agora, porém, torna-se necessário ampliá-lo. A crítica da economia política precisa dialogar com a antropologia, a filosofia, a ecologia política, os estudos ameríndios, a teoria da economia da atenção, a inteligência artificial e as novas tecnologias de controle social. Não para abandonar a crítica do valor, mas para prolongá-la historicamente, acompanhando as novas formas assumidas pela sociedade da mercadoria em sua fase de esgotamento.
Ao mesmo tempo, precisamos voltar nosso olhar para sociedades que jamais organizaram integralmente sua existência segundo a lógica da mercadoria. Não se trata de idealizar os povos originários nem de defender qualquer retorno ao passado. Trata-se de reconhecer que a humanidade produziu, ao longo de sua história, outras formas de relação com o território, com a natureza, com a riqueza, com o poder e com a comunidade. Essas experiências demonstram, de forma concreta, que a sociedade da mercadoria não constitui o destino inevitável da civilização. Merecem então ser estudadas para assimilarmos muitos de seus conceitos, como por exemplo, o desprezo ao conceito de progresso.
Esse é, a meu ver, o verdadeiro desafio colocado diante de nós. A crítica radical do capitalismo precisa caminhar ao lado da investigação das formas humanas de existência que escaparam, ainda que parcialmente, à lógica do valor. É nesse diálogo entre a crítica da sociedade da mercadoria, as novas formas de acumulação digital e os conhecimentos preservados por povos que nunca se deixaram inteiramente capturar pela racionalidade mercantil que vejo surgir um dos mais promissores programas de pesquisa para o século XXI.
Mais do que interpretar a barbárie que se aproxima, precisamos compreender quais possibilidades históricas permanecem abertas para além dela. Este é um desafio que queremos enfrentar junto com outos pensadores que têm como tema estas questões. Na verdade esta é a nossa forma de contribuir para o amadurecimento crítico da formação de uma ampla frente anticapitalista no nosso país e na construção de um novo programa para além da Sociedade da Mercadoria.

