* Economista, produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor, filho do ex-ministro do Trabalho e ex-presidente da Supra, João Pinheiro Neto.
Os brasileiros discutem, com razão, o golpe militar de 1964. Mas a nossa tradição de rupturas institucionais começou muito antes.
A República brasileira nasceu de um golpe de Estado.
Curiosamente, quase nunca falamos sobre isso.
Meu pai, João Pinheiro Neto (1929–2006), gostava de conversar sobre esse episódio.
Era um republicano convicto. Não poderia ser diferente. Neto de João Pinheiro da Silva (1860–1908), um dos fundadores do Partido Republicano Mineiro, cresceu acreditando que a República representava um projeto de modernização do Brasil. João Pinheiro era influenciado pelo pensamento positivista e defendia um Estado moderno, voltado para a educação, a administração eficiente e o desenvolvimento nacional.
Mas havia uma aparente contradição.
Embora profundamente republicano, jamais romantizou a forma como a República nasceu.
Costumava brincar que o Marechal Deodoro da Fonseca estava em casa, de pijama, enfrentando uma forte crise intestinal, quando foi chamado a montar no cavalo e seguir para o Campo de Santana. Sempre achou irônico que um homem naquela situação acabasse entrando para a história como o proclamador da República.
Por trás da ironia havia uma reflexão.
Meu pai dizia que Deodoro, herói da Guerra do Paraguai e figura respeitada pelo Exército, era o personagem ideal para dar legitimidade militar à ruptura constitucional.
Porque, gostemos ou não, foi exatamente isso que aconteceu.
Não houve uma revolução popular.
Não houve consulta ao povo.
Nenhum brasileiro foi chamado a decidir entre Monarquia e República.
A mudança do regime foi conduzida por um pequeno grupo de militares e civis.
O jornalista e político Aristides Lobo (1838–1896) deixou o relato mais célebre daquele dia. Escreveu que o povo assistiu ao episódio “bestializado”, sem compreender exatamente o que estava acontecendo.
É claro que o Império vivia uma crise. A abolição da escravidão havia rompido a aliança entre a Coroa e parte dos grandes proprietários rurais. O Exército, fortalecido pela Guerra do Paraguai, reivindicava maior protagonismo político. As ideias republicanas e positivistas ganhavam espaço entre militares e intelectuais. D. Pedro II envelhecia e cresciam as dúvidas sobre o futuro do regime.
Meu pai tinha uma visão muito particular do imperador.
Considerava D. Pedro II um homem culto, apaixonado pelas letras, pelas ciências e pelos idiomas, mas acreditava que lhe faltava a energia necessária para governar um país jovem, desigual e em formação como o Brasil.
Em contrapartida, admirava D. Pedro I. Via nele um líder decidido, impetuoso e capaz de assumir riscos nos momentos decisivos.
Era a leitura dele.
Mas o que mais me impressionava era sua honestidade intelectual.
Nunca deixou que sua convicção republicana apagasse a forma como a República nasceu.
Talvez essa seja a maior lição que herdei dele.
Uma boa causa não transforma automaticamente qualquer caminho em um caminho legítimo.
A República transformou o Brasil.
Mas nasceu de uma ruptura institucional.
Talvez por isso nossa história tenha sido marcada por uma sucessão de golpes e contragolpes. Mudaram os protagonistas, mudaram as justificativas, mas permaneceu a tentação de substituir as regras do jogo pela força ou por articulações de pequenos grupos convencidos de que falavam em nome da nação.
Não escrevo estas linhas para defender a Monarquia nem para diminuir a importância da República.
Escrevo porque acredito que uma democracia madura não teme a própria história.
Ao contrário.
Ela reconhece suas conquistas, mas também suas contradições.
Talvez tenha chegado a hora de revisitar 1889 com menos paixão e mais serenidade.
Os golpes de Estado não começaram em 1964.
O primeiro deles foi justamente aquele que deu origem ao regime em que vivemos até hoje.
E, talvez, por isso seja também o mais esquecido.
Foto (Acervo pessoal): Dom Pedro II.


