Henrique Pinheiro *
Economista, produtor executivo do documentário Terra Revolta, filho de João Pinheiro Neto, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor, organiza o livro Crônicas que nunca contaram na escola e a série “Entre Duas Cidades”.
Ipanema talvez seja um dos lugares onde melhor entendemos o Brasil descrito por Darcy Ribeiro em O Povo Brasileiro. Ali, a miscigenação deixa de ser conceito e vira paisagem.
Quando estou no Rio de Janeiro, tenho um ritual. Caminho pela areia do Leblon até o Arpoador. A cada passo, um pouco da alma carioca vai se revelando.
Começo sempre pelo Leblon. Ali está um Brasil muito particular. Uma praia exclusiva e, muitas vezes, exclusora. Caminhando pela areia, tudo parece homogêneo. As roupas, os corpos, os hábitos. Dá a impressão de que todos compartilham o mesmo universo e um estilo de vida semelhante. É quase um clube a céu aberto.
Mas bastam poucos minutos de caminhada para a paisagem mudar.
Na altura da Cruzada São Sebastião, a praia muda de tom. O branco predominante vai dando lugar a peles mais escuras. O Rio começa a revelar outra de suas faces. Impressiona como essa transição acontece naturalmente, sem placas, sem muros e sem qualquer barreira física. As fronteiras são invisíveis, mas parecem conhecidas por todos.
Continuo caminhando e chego ao Posto 9. Ali tudo volta a se misturar. O altinho toma conta da areia. As bolas parecem pipocar por todos os lados. Jovens, famílias, turistas, moradores antigos e recém-chegados dividem o mesmo espaço. A praia volta a ser um grande ponto de encontro.
Mais adiante, surge naturalmente o trecho frequentado pelo público LGBT+. Corpos cuidadosamente trabalhados transformam a areia numa passarela a céu aberto. Música, liberdade e convivência fazem parte da paisagem, sem precisarem de explicação.
Poucos metros depois, o Rio revela um dos contrastes que melhor representam sua identidade.
Da faixa de areia frequentada pelos moradores do Cantagalo, Pavão e Pavãozinho até a praia em frente ao Fasano são apenas alguns passos. Mas ali convivem dois mundos.
De um lado, famílias de trabalhadores que carregam no rosto as marcas de uma vida que começou cedo. Crianças correndo livres pela areia, pais e mães aproveitando cada minuto daquele pedaço de mar. Talvez sejam justamente eles os que mais valorizem aquelas poucas horas diante do oceano. Ali, cada mergulho, cada banho de sol e cada sorriso parecem suspender, por algum tempo, o peso da rotina.
Do outro lado, o Fasano leva sua sofisticação até a areia, com espreguiçadeiras reservadas e atendimento exclusivo aos hóspedes. Os turistas observam, encantados, não apenas o encontro do azul do mar com o Morro Dois Irmãos, mas também a extraordinária diversidade humana que se desenrola diante deles como um espetáculo permanente e único.
É difícil encontrar outro lugar onde o Brasil exponha, em tão poucos metros, suas desigualdades e, ao mesmo tempo, sua capacidade de convivência.
Então chego ao meu lugar preferido: o Arpoador.
Sempre me sento ali por algum tempo. É tanta vida acontecendo ao mesmo tempo que preciso parar para me situar. Para mim, aquele é o trecho mais vivo da praia. O mar ganha um azul quase caribenho, mas é o povo que prende o olhar.
O Arpoador é o grande caldeirão de Ipanema.
Ali tudo se mistura.
Fico observando as conversas e tentando imaginar de onde vieram aquelas pessoas. Que histórias carregam? A maioria é jovem. Estudam? Estudaram? O que pensam do Brasil e do futuro? Ou será que, naquele instante, simplesmente vivem o presente?
O funk domina o ambiente.
Muitas letras não conversam com a minha geração. Outras, porém, me fazem parar para escutar.
Ao contrário do que muitos imaginam, o funk não me afasta daquela juventude. É justamente o contrário. Ele se torna uma forma de entendê-la.
Nas letras encontro a vida nas favelas. Encontro a violência, a ausência do Estado, a desigualdade e a luta diária pela sobrevivência. Mas encontro também sonhos: o desejo de prosperar, de consumir, de conquistar respeito, de celebrar a vida e, principalmente, de ser visto.
A ostentação, que para alguns pode parecer apenas superficialidade, muitas vezes revela outra coisa: o desejo de pertencer a um mundo do qual aquela juventude sempre foi mantida à distância. As marcas, os carros e o dinheiro aparecem como símbolos de uma inclusão que durante muito tempo lhes foi negada.
O baile deixa de ser apenas música. Torna-se um espaço de liberdade, identidade e celebração. Um lugar onde aquela juventude pode existir sem pedir licença.
Percebo então que o funk não me afasta deles. É justamente o contrário. Ele se transforma numa linguagem que me ajuda a compreender aquela juventude e a enxergar a cidade pelos seus olhos.
Por alguns instantes, vejo um Rio que a faixa de areia do Leblon ,e muito menos a do Fasano ,muitas vezes sequer imagina que exista.
Talvez seja essa a maior riqueza do Arpoador. Ali, as fronteiras invisíveis da cidade continuam existindo, mas é possível escutar as vozes dos dois lados.
O Arpoador não elimina as desigualdades do Rio. Elas continuam ali, lado a lado. Mas, por algumas horas, dividem a mesma areia, o mesmo mar e o mesmo pôr do sol. Talvez seja um dos poucos lugares onde a cidade partida ainda conversa consigo mesma.
Muitos chegaram da Baixada Fluminense. Jovens, casais e famílias inteiras que atravessaram a cidade apenas para passar um dia diante do mar.
Comer um milho preparado na hora, com os grãos retirados da espiga e temperados com manteiga e sal, para mim ainda é uma novidade. Para muitos deles, porém, até comprar uma quentinha dos ambulantes continua sendo um pequeno luxo. O dinheiro está contado.
Mas existe ali uma riqueza que não cabe em nenhuma estatística.
Os vendedores também fazem parte daquele espetáculo. O do mate conhece o da quentinha. O da empada conversa com o do quibe. O sorvete divide espaço com o sacolé, o queijo coalho e o churrasquinho preparado na hora.
Muitos já atendem em espanhol e inglês, e o Pix, que até americanos observam com inveja, virou a moeda corrente da areia.
O vendedor da quentinha recomenda o mate. O do mate indica o queijo coalho. A concorrência existe, mas a solidariedade parece falar mais alto. Compartilham clientes, histórias e dificuldades.
Na areia, sobrevivem juntos.
Sentado na Pedra do Arpoador, olhando aquele pedaço do Rio, lembro-me de uma frase que ouvi tantas vezes de meu pai, repetindo João Goulart.
“Não troco um trabalhador brasileiro por cem granfinos.”
Naquele instante, começo a entender o verdadeiro sentido dessas palavras.
Talvez o maior patrimônio do Brasil nunca tenha sido apenas suas montanhas, suas praias ou suas riquezas naturais.
Talvez sempre tenha sido o seu povo, essa extraordinária mistura de indígenas, africanos e europeus que, ao longo dos séculos, deu origem a algo inteiramente novo: o brasileiro.
É esse povo que me faz querer voltar. Não porque precise de esmolas, mas porque merece oportunidades. Educação, saúde, saneamento básico e a chance de desenvolver plenamente o talento que demonstra todos os dias.
Darcy Ribeiro acreditava que a escola pública deveria ser o grande instrumento de transformação do Brasil. Não apenas um lugar onde a criança aprendesse a ler e escrever, mas um espaço capaz de formar cidadãos, desenvolver talentos e romper o ciclo da desigualdade.
Enquanto observo as crianças correndo pela areia, penso que entre elas pode estar um futuro cientista, professor, médico, músico, escritor ou empreendedor. O talento existe. O que tantas vezes falta é a oportunidade.
Talvez Darcy estivesse certo. Um país que deixa de construir escolas acaba sendo obrigado a construir presídios.
Quando caminho do Leblon ao Arpoador, volto para casa convencido de que o Brasil não nasceu para fracassar. O que tantas vezes nos faltou foi uma elite capaz de enxergar o Brasil para além do próprio umbigo.
Somos um país que ainda não descobriu toda a força de sua própria gente.
E talvez seja por isso que continuo voltando ao Arpoador.
Porque ali, apesar de tudo, o Brasil ainda se encontra.
Foto (Midias Sociais): Pedra do Arpoador.


