A Guerra pela Petrobras Nunca Terminou
Rio de janeiro

A Guerra pela Petrobras Nunca Terminou

A Guerra pela Petrobras Nunca Terminou Rio de janeiro
  Henrique Pinheiro *
  * Economista e Produtor Executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor, filho de João Pinheiro Neto, organiza Crônicas que nunca contaram na escola e a série Entre Duas Cidades
 Há temas que o tempo não consegue encerrar. A Petrobras é um deles.
 Basta seu nome aparecer em uma conversa para que o Brasil volte a se dividir.
  Uns a enxergam como símbolo da soberania nacional. Outros a veem como exemplo dos excessos do Estado. Setenta anos depois, continuamos discutindo praticamente as mesmas questões que mobilizaram o país em 1953.
 Naquele momento, o debate nunca foi apenas sobre petróleo. O que estava em jogo era um projeto de país.
 De um lado, Getúlio Vargas, militares nacionalistas, grande parte do PTB, setores do PSD, estudantes, intelectuais e a campanha “O Petróleo é Nosso” defendiam que o petróleo era um recurso estratégico demais para ficar sujeito aos interesses do mercado internacional. Para eles, controlar a energia significava garantir a soberania nacional e criar as bases da industrialização brasileira.
 Do outro lado estavam a UDN, parte do empresariado, importantes veículos de imprensa e economistas que acreditavam que o Brasil não possuía capital nem tecnologia suficientes para explorar suas reservas. Defendiam maior participação da iniciativa privada, inclusive estrangeira, na exploração do petróleo.
 Depois de quase dois anos de intensos debates, o Congresso aprovou a criação da Petrobras. Ela nasceu como sociedade de economia mista, mas sob controle do Estado brasileiro.
 Poucos imaginavam que aquela empresa, criada com estrutura modesta e poucos ativos, se transformaria em uma das maiores companhias da América Latina e em referência mundial na exploração de petróleo em águas profundas e ultraprofundas.
 Ao publicar recentemente um texto sobre a Petrobras, fiquei impressionado com os comentários dos leitores. Alguns defenderam a privatização. Outros afirmaram que a empresa representa a própria soberania energética do Brasil. Houve quem lembrasse os escândalos de corrupção. Outros destacaram sua liderança tecnológica e sua importância para o desenvolvimento nacional.
 Percebi que os comentários reproduziam, com outras palavras, o mesmo debate de 1953.
 Mudaram os partidos. Mudaram os governos. Mudaram os argumentos. Mas a pergunta continua a mesma.
 Uma empresa estratégica deve permanecer sob controle do Estado ou ser entregue à iniciativa privada?
 Talvez essa seja a razão de a Petrobras provocar tantas paixões. Ela nunca foi apenas uma empresa de petróleo.
 A Petrobras tornou-se um símbolo.
 E os símbolos, ao contrário das empresas, atravessam gerações. Talvez seja por isso que a guerra pela Petrobras nunca tenha terminado. No fundo, ela sempre foi uma disputa sobre qual projeto de Brasil queremos construir.
Foto (Reprodução Acervo O Globo): Getúlio Vargas com petróleo nas mãos.