Henrique Pinheiro *
* Economista, produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor, organiza Crônicas que nunca contaram na escola e a série Entre Duas Cidades. É filho de João Pinheiro Neto.
No dia 5 de agosto de 2026, completam-se 72 anos de um dos episódios mais dramáticos da história política brasileira. Na madrugada de 5 de agosto de 1954, os tiros disparados na Rua Tonelero, em Copacabana, deixaram de ser apenas um caso policial. Em poucos minutos, transformaram-se no estopim de uma crise que mudaria o destino da República.
O alvo era o jornalista e deputado Carlos Lacerda, o mais combativo opositor do presidente Getúlio Vargas. Ao seu lado caminhava o major-aviador Rubens Florentino Vaz, responsável por sua segurança. Lacerda sofreu um ferimento no pé. O major foi atingido mortalmente e morreu ainda no local.
A morte de um oficial da Aeronáutica provocou enorme comoção. O caso saiu das mãos da polícia e passou a ser investigado pela própria Aeronáutica. Instalava-se a chamada República do Galeão, um dos inquéritos mais famosos da história do Brasil.
Foi durante os interrogatórios que surgiu um dos depoimentos mais perturbadores do caso. Alcino João do Nascimento, apontado como um dos autores dos disparos, declarou que a missão não era matar Carlos Lacerda, mas apenas intimidá-lo. Segundo sua versão, o major Rubens Vaz foi atingido ao reagir para defender o jornalista. A declaração nunca dissipou as dúvidas. Pelo contrário, alimentou um debate que atravessaria gerações.
Enquanto o inquérito avançava, Carlos Lacerda não esperou pelas conclusões da investigação. Ainda convalescendo do ferimento, concedeu entrevistas e afirmou que o atentado não era apenas contra sua pessoa, mas contra o próprio país. Em seus discursos e nas páginas da Tribuna da Imprensa, responsabilizou politicamente o governo pelo ambiente que, segundo ele, havia tornado o crime possível.
No Palácio do Catete, a reação foi diferente. Getúlio Vargas determinou rigor absoluto nas investigações e negou qualquer participação no atentado. Gregório Fortunato, chefe da guarda presidencial, sustentou que o presidente desconhecia completamente a ação. Coube ao ministro da Justiça, Tancredo Neves, defender a apuração dos fatos e tentar conter uma crise que crescia a cada hora.
Mas, a batalha não era travada apenas nos gabinetes ou nas salas de interrogatório. Ela acontecia, sobretudo, nas redações dos jornais.
De um lado, a Tribuna da Imprensa, dirigida por Carlos Lacerda, transformava diariamente o atentado em uma acusação direta contra o governo. Do outro, a Última Hora, de Samuel Wainer, reconhecia a gravidade do crime, mas sustentava que não havia provas de envolvimento pessoal de Getúlio Vargas e defendia que o presidente não poderia ser condenado antes da conclusão das investigações. O Brasil passou a acompanhar duas narrativas completamente distintas sobre o mesmo acontecimento.
Cada manchete aumentava a tensão política. Cada edição dos jornais aprofundava a divisão do país.
As investigações acabaram apontando o envolvimento de integrantes da guarda presidencial, entre eles Gregório Fortunato. Sua prisão agravou ainda mais o isolamento político de Vargas.
Dezenove dias depois, na manhã de 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas morreu no Palácio do Catete. Sua Carta-Testamento provocou uma das maiores comoções populares da história brasileira e mudou completamente o rumo da crise.
Passados 72 anos, a Rua Tonelero continua sendo um dos episódios mais estudados e debatidos da República. Embora o inquérito oficial tenha identificado responsáveis e levado à condenação de envolvidos, muitos aspectos daquele atentado ainda despertam interpretações diferentes entre historiadores.
A Rua Tonelero foi muito mais do que o cenário de um crime. Foi o ponto de partida de uma disputa política, jurídica e jornalística que transformou para sempre a história do Brasil. Compreender aquela madrugada é compreender como, em determinados momentos, alguns minutos são suficientes para alterar o destino de uma nação.
Foto de Carlos Lacerda: Reprodução.


