Fevereiro de 2025 foi marcado por fortes tensões comerciais globais e indicadores econômicos mistos, moldando um cenário de cautela para os mercados. Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump manteve o foco em políticas protecionistas, implementando tarifas de 25% sobre importações do Canadá e do México, e ampliando de 10% para 20% as tarifas contra produtos chineses.
Essas medidas, que entraram em vigor no início de março após uma trégua de um mês, elevaram a aversão ao risco no mercado internacional. O índice VIX – conhecido termômetro do medo em Wall Street –em janeiro e mediante as expectativas políticas saltou mais de 12%.
O déficit comercial dos EUA atingiu um recorde de US$ 153,263 bilhões em janeiro, um aumento de 25,6% em relação a dezembro e de 70% na comparação anual. Esse desequilíbrio crescente no comércio exterior tem sido um dos principais argumentos da administração Trump para intensificar medidas protecionistas, aumentando as tarifas como forma de reduzir a dependência de importações e incentivar a produção doméstica.
Por outro lado, economistas alertam que tais barreiras podem acabar prejudicando o crescimento ao elevar custos para consumidores e empresas americanas, adicionando ainda mais volatilidade aos mercados financeiros.
Em 27 de fevereiro, o S&P 500 caiu 1,6%, marcando sua quinta queda em seis dias e quase eliminando os ganhos acumulados desde o Dia da Eleição,registrando sua pior sequência do ano até então. Em um cenário de cautela, o Federal Reserve segue atento aos sinais da economia.
Em janeiro, a inflação medida pelo núcleo do índice de preços para gastos com consumo (PCE) avançou 0,3%, dentro do esperado, acumulando alta de 2,6% em 12 meses. Paralelamente, os gastos dos consumidores americanos surpreenderam com uma queda de 0,2% no período, indicando uma possível moderação da atividade econômica.
Para fevereiro, o mercado de trabalho americano apresentou sinais mais evidentes de desaceleração. De acordo com o Relatório Nacional de Emprego da ADP, divulgado em 5 de março, foram criados apenas 77 mil vagas no setor privado – um recuo expressivo frente às 186 mil vagas registradas em janeiro e bem abaixo das expectativas de 140 mil projetadas por economistas consultados pela Reuters.
Esse cenário contrasta com os números de janeiro, quando o Bureau of Labor Statistics (BLS) reportou a criação de 143 mil empregos, cifra que, apesar de robusta, já havia ficado aquém da projeção inicial de 170 mil vagas. Diante dessa desaceleração no ritmo de contratações, o Federal Reserve pode reconsiderar o cronograma e a magnitude dos cortes nas taxas de juros ao longo de 2025, dependendo da evolução dos demais indicadores econômicos nos próximos meses.
No cenário político, a busca por uma solução para a guerra na Ucrânia ganhou destaque em 28 de fevereiro de 2025, Donald Trump e Volodymyr Zelensky se reuniram na Casa Branca para discutir um acordo sobre minerais e a guerra na Ucrânia. O encontro, porém, foi tenso e terminou sem a assinatura do acordo. Trump acusou Zelensky de “brincar com a Terceira Guerra Mundial” e interrompeu as negociações, levando o líder ucraniano a sair antes do previsto.
Líderes europeus manifestaram apoio a Zelensky, enquanto autoridades russas elogiaram Trump. Em 3 de março, a administração Trump suspendeu toda a ajuda militar à Ucrânia, aumentando as incertezas sobre a segurança regional. Zelensky lamentou o desfecho, mas reafirmou sua disposição para negociações de paz.
Europa e China.
De acordo com o Eurostat, a inflação anual na zona do euro desacelerou de 2,5% em janeiro para 2,4% em fevereiro, aproximando-se da meta do Banco Central Europeu (BCE). A queda reflete a redução nos preços de energia e bens industriais, o que pode aliviar a pressão por novos aumentos nas taxas de juros. No entanto, o BCE mantém cautela diante de pressões inflacionárias persistentes.
Paralelamente, o crescimento econômico da zona do euro permaneceu estagnado em fevereiro, com o Índice de Gerentes de Compras (PMI) composto registrando 50,2. O leve avanço do setor de serviços foi quase totalmente compensado pela contração contínua na indústria manufatureira, evidenciando a dificuldade da região em retomar um crescimento mais sólido.
Nos mercados financeiros, as bolsas europeias oscilaram em meio a preocupações com uma possível guerra comercial. A China está no centro das atenções por sua resposta às tarifas dos EUA e seus indicadores econômicos. Em 4 de março, Pequim condenou as medidas de Washington e impôs tarifas de 15% sobre produtos americanos, como frango, milho e algodão, a partir de 10 de março.
A disputa pode beneficiar o Brasil, já que a China buscará fornecedores alternativos. Enquanto isso, Pequim tenta manter a confiança dos investidores, sem anunciar um novo plano econômico para 2025. Indicadores apontam recuperação: o PMI industrial subiu de 50,1 em janeiro para 50,8 em fevereiro, sugerindo leve expansão. No entanto, as tensões comerciais podem impactar o comércio global e afetar países emergentes como o Brasil.
Se mantida, a recuperação chinesa pode sustentar os preços de commodities como minério de ferro e soja, favorecendo a balança comercial brasileira. No entanto, a estabilidade das relações comerciais globais será determinante. A recuperação chinesa traz um contraponto importante: se mantida, pode sustentar preços de produtos como minério de ferro e soja – fundamentais para a balança comercial brasileira –, mas requer cautela pois depende da estabilidade das relações comerciais.
Artigo de Marcos Freire
Conultor de investimento CEA

