março 7, 2026
Rio de janeiro

A avenida não se curva

A avenida não se curva Rio de janeiro
    Henrique Pinheiro *
     Economista e produtor executivo de cinema.
     O Carnaval nunca foi neutro, nem silêncio confortável, nem decoração vazia.
O desfile da Acadêmicos de Niterói reafirmou essa tradição com coragem estética. Houve beleza, técnica,  narrativa consistente.
Mas, sobretudo, houve liberdade.
Alguns, preferiram rotular como provocação.
     Outros, insinuaram exagero.
Quando a arte incomoda, a reação costuma vir antes da reflexão.
A história brasileira conhece bem esse reflexo. Em outros tempos,
versos eram cortados, peças eram interditadas, canções eram silenciadas.
Sempre em nome da ordem, em nome da moral.
A palavra censura começa assim:
Pequena, justificável, “apenas um ajuste”.
Depois cresce.
O Carnaval, porém, é território da metáfora.
É comentário social em forma de ritmo.
É crítica embalada em harmonia.
Censurá-lo seria amputar sua essência.
O desfile foi claro sem ser panfletário. Foi político sem ser partidário.
Foi crítico sem ser agressivo.
Arte não precisa pedir licença para existir.
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva divide opiniões.
Isso é próprio da democracia.
Mas,  democracia pressupõe palco livre.
Pressupõe alegoria livre,  samba livre.
A chamada mentalidade udenista
ressurge quando a criatividade desafia o conforto. Ela teme o riso inteligente, a ironia, o espelho.
Porque o Carnaval é espelho.
A Acadêmicos de Niterói apenas refletiu o seu tempo.
E, refletir não é crime.
Em um país que já atravessou longos invernos institucionais, qualquer sombra de controle cultural merece vigilância democrática.
A avenida não atacou.Interpretou.
Não dividiu. Expressou.
      E expressão é o primeiro gesto da liberdade. Se houve desconforto,
é sinal de que a arte cumpriu seu papel.
Porque quando a avenida fala sem medo, a democracia respira sem amarras.