A Crise, a Solidão e o Rio da Prata
Rio de janeiro

A Crise, a Solidão e o Rio da Prata

A Crise, a Solidão e o Rio da Prata Rio de janeiro

   Henrique Pinheiro *  

   * Economista e produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor.  

 Este artigo é um dos capítulos do meu livro, Crônicas de um Mercado sem Pudor.  

  Agosto de 2008. Uruguai.  Montevidéu.  O mundo entrava na maior crise financeira desde 1929. Eu, discretamente, entrava na minha. 

  Com a ajuda de uma profissional de realocação contratada pelo Wachovia, aluguei um apartamento na Rambla República del Chile, em Malvín. Vista ampla para o Rio da Prata. Montevidéu, com sua calma melancólica, seria o cenário silencioso do colapso — do mercado e da minha vida pessoal. 

 Como relatei no capítulo anterior, não achei prudente trazer a família para o Uruguai em meio ao caos global.  Minhas filhas estavam na escola, minha  mulher, naquela época, médica talentosa consolidava seu consultório no Rio. Optei pela ponte aérea. Três horas e meia de voo , imigração, malas, despedidas repetidas. A crise encurtava os horizontes e alongava as ausências. 

 Lembro de explicar à responsável pela realocação que minha família ficaria no Brasil.  

 Com um inglês castelhano e direto, ela respondeu sem rodeios:
 “Papai e mamãe separados. Esse casamento não aguenta.” 

 Ela acertou. Um casamento de quase vinte anos ruiu como um banco superalavancado.  

 Distância, pressão e silêncio fizeram o que nenhuma discussão faria. Em 2008, não quebraram apenas instituições: quebraram casas. 

 A rotina virou âncora. Acordava às cinco da manhã.  

 Corria 45 minutos na esteira do prédio, moderno, raro para a época.  

 A endorfina era o meu último ativo líquido. Sem ela, não haveria balanço que fechasse. 

 Os fins de semana expunham o vazio.  Caminhava por Montevidéu como quem percorre um mercado após o pregão: ruas abertas, poucas vozes, tempo demais.  

 O uruguaio, sempre gentil, oferecia humanidade quando o sistema não oferecia respostas.
 Enquanto isso, o Wachovia afundava. Rei do subprime, agravou seu destino ao comprar, em 2006, o Golden West, especialista em crédito hipotecário de alto risco. O mercado não perdoa erros sistêmicos — nem pessoais. As ações caíram 93%. 

 A pergunta era inevitável: errei ao vir? 

Separado, distante das filhas, preso a um país estrangeiro e, agora, sem banco. Endorfina já não bastava. 

 Os clientes seguiam confiantes. Eu, nem tanto. Restava apenas o mantra que sustentava Wall Street:” too big to fail:. Mas também aprendi ali que pessoas não são grandes demais para quebrar. 

 Quando o Wachovia ruiu, ruiu comigo.  Voltar ao Brasil deixou de ser hipótese distante e virou plano de sobrevivência.  Eu já estava há um ano e meio no Uruguai quando surgiu o Wells Fargo — conservador, oportunista, lúcido. Cresceu comprando destroços e salvou o sistema onde outros só viam ruínas. 

 Mas essa é outra história. 

 Este capítulo não fala apenas de uma crise financeira. Fala do momento em que percebi que colapsos não acontecem só nos mercados.  Acontecem dentro de casa, longe dos filhos, no silêncio dos domingos. E, como nos mercados, quando a confiança some, não há resgate que evite a quebra.