“Mamãe, por que você está azul?”
A pergunta foi feita por Janaína Teles, de apenas cinco anos de idade, ao reencontrar a mãe nas dependências do DOI-CODI da Rua Tutóia, em São Paulo.
Era dezembro de 1972. Enquanto o país se aproximava das festas de fim de ano, Maria Amélia de Almeida Teles, conhecida como Amelinha, e seu marido, César Teles, haviam sido presos por agentes da repressão política. Conduzidos ao DOI-CODI, um dos principais centros de interrogatório e tortura da ditadura militar brasileira, passaram a ser submetidos a violentas sessões de espancamentos e choques elétricos.
Na casa da família permaneceram duas crianças: Janaína, de cinco anos, e Edson, de quatro.
No dia seguinte, elas também foram levadas ao DOI-CODI.
Não porque representassem qualquer ameaça ao regime.
Não porque tivessem cometido algum crime.
Eram apenas duas crianças.
Ao reencontrar a mãe, Janaína encontrou um rosto desfigurado pelos espancamentos, o corpo coberto de hematomas e a pele marcada pela violência. Sem compreender o que via, fez a pergunta que atravessaria mais de cinco décadas:
“Mamãe, por que você está azul?”
Na simplicidade daquela frase estava condensada toda a brutalidade de um período da história brasileira.
Janaína não conhecia política.
Não sabia o que era uma ditadura.
Não entendia o significado de palavras como repressão, censura ou tortura.
Via apenas a própria mãe transformada pela violência.
Ao permitir que duas crianças presenciassem o sofrimento dos pais, os agentes da repressão ultrapassaram uma das fronteiras mais elementares da dignidade humana. A tortura deixava de atingir apenas o preso político e alcançava deliberadamente sua família, utilizando o vínculo entre pais e filhos como instrumento de pressão psicológica.
Depois de alguns dias, Janaína e Edson foram encaminhados ao Juizado de Menores e, posteriormente, entregues aos avós maternos.
Mas experiências como essa não terminam quando se fecham as portas de uma prisão.
Elas permanecem na memória de quem as viveu.
Décadas depois, Janaína tornou-se historiadora e pesquisadora dedicada ao estudo da ditadura militar brasileira. Edson seguiu a carreira acadêmica como filósofo e professor universitário, desenvolvendo reflexões sobre memória, violência de Estado e democracia.
A trajetória da família Teles também se tornou um marco na Justiça brasileira. Em uma ação cível histórica, foi reconhecida a responsabilidade do então coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra pela prática de tortura durante o regime militar, decisão que representou um importante reconhecimento da responsabilidade do Estado por graves violações de direitos humanos.
A história da família Teles revela que a repressão não se limitou às celas.
Ela entrou nas casas. Separou pais e filhos. Interrompeu infâncias. Produziu marcas que acompanharam famílias por toda a vida.
Toda democracia precisa preservar a memória dos seus momentos mais dolorosos. Não para alimentar ressentimentos ou dividir o país, mas para compreender até onde pode chegar um Estado quando abandona os limites da lei e da dignidade humana.
A pergunta feita por uma menina de cinco anos continua ecoando na história do Brasil.
“Mamãe, por que você está azul?”
Talvez nenhuma investigação, nenhum documento oficial e nenhuma sentença judicial consigam traduzir, com tanta força, o drama vivido por aquela família.
Porque há momentos em que uma única pergunta infantil é capaz de revelar toda a dimensão de uma tragédia nacional.
Foto: Acervo pessoal.

