A Prova
Rio de janeiro

A Prova

A Prova Rio de janeiro

   Henrique Pinheiro * 

    * Economista e produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor.  

 

   Em meu livro, Crônicas de um Mercado sem Pudor, que será lançado no segundo semestre, aqui no Brasil, relembro quando fui contratado por uma grande instituição americana, a Merrill Lynch,  no ano 2000. E, que eu teria que prestar uma prova, junto à FINRA, autoridade reguladora que fiscaliza corretoras e profissionais de valores imobiliários, para  

obter certificação,  como consultor, financeiro nos Estados Unidos.  

  Sem a licença da FINRA, eu não poderia sequer telefonar para um cliente.
   Era simples assim. No mercado financeiro americano, não existe atalho.
    No meu primeiro dia na Merrill Lynch, fui apresentado ao material de estudo.
Eu tinha 40 anos. Estávamos no ano 2000.
     Em casa, Maria tinha 4 anos, Clara apenas 2.
    Há décadas que eu não mantinha uma rotina formal de estudos.
    A empresa me concedeu três meses para a preparação — tempo que, para eles, era mais do que suficiente. Para mim, era um desafio enorme.
  Decidi estudar fora de casa, como se fosse um trabalho.
Todos os dias, cedo, eu seguia para a biblioteca da Universidade Cândido Mendes, no Centro do Rio, onde havia me formado.
  Chegava às 9h em ponto. Almoçava às 13h.
  Voltava às 14h30 e estudava até as 18h. Durante três meses.
Sempre gostei de rotinas. Substituí o trabalho pelo estudo.
  Tudo era novo. Tudo era em inglês.
Meu inglês era básico, vocabulário restrito.
   A prova era dividida em quatro áreas: produtos financeiros, legislação e regulação do mercado americano, ética e conduta, e relacionamento com clientes.
   Quase quatro horas de duração, divididas em dois períodos. A taxa de aprovação entre americanos era de 61%. Entre estrangeiros, caía para 50%.
A nota mínima: 72%.
  Um belo desafio para alguém aos 40.
 Após os três meses, o banco custeou passagem e hospedagem. Escolhi Miami, onde havia um curso intensivo de uma semana. As peças começaram, finalmente, a se encaixar.
   Na véspera da prova, não dormi.
Acordei cedo, caminhei na esteira do hotel — precisava da endorfina — e segui para o centro de exames.
  Segurança rígida. Armário, chave, nada comigo — nem relógio.
 Entrei na cabine, coloquei os fones. O tempo começou a correr.
125 questões. Uma corrida contra o relógio.
  No intervalo, nada desceu. Apenas café.
 Ao final, chamei o fiscal.
 Ele apertou uma tecla.
 Segundos intermináveis. A nota apareceu na tela: 72. Ufa! 
 O primeiro obstáculo estava vencido.
  Agora, era arrumar as malas e voltar ao verdadeiro compromisso: buscar clientes — oficialmente registrado como Consultor Financeiro nos Estados Unidos.
    A saga do mercado internacional.