A República das Madrugadas
Rio de janeiro

A República das Madrugadas

A República das Madrugadas Rio de janeiro

 

      Henrique Pinheiro * 

      * Economista e produtor executivo de cinema, autor de Crônica de um Mercado sem Pudor.  

      

    O Brasil, às vezes, se revela de maneira involuntária. Não nos discursos preparados, nem nas notas oficiais cuidadosamente redigidas, ou nas entrevistas concedidas com gravata ajustada e frases ensaiadas. 

    O país real aparece em outro lugar.          Nas conversas privadas.Nos diálogos banais, nas mensagens trocadas pelo celular,  entre um compromisso e outro. 

     Foi assim que, recentemente, se abriu uma pequena janela para observar um pedaço da nossa vida institucional. Ali,  estavam diálogos entre um banqueiro e sua companheira. Nada particularmente elaborado. 

    Pelo contrário.“Wow.”“Sentiram o golpe.” “Esse filme daria um Oscar.” Frases curtas. Exclamações juvenis. Comentários típicos de quem narra acontecimentos como se estivesse assistindo a um reality show.  

    O detalhe curioso é o contexto.Entre uma exclamação e outra surgem referências a encontros com personagens centrais da República,  

dirigentes do Congresso, autoridades do Judiciário, presidentes de instituições financeiras. 

    E, até, menções ao próprio presidente da República.Tudo contado com uma informalidade surpreendente. Reuniões que deveriam carregar o peso institucional do Estado brasileiro aparecem descritas como episódios de uma agenda social particularmente animada. 

     Em certos momentos os relatos sugerem algo ainda mais peculiar: contatos informais que varam madrugadas.Conversas tardias. 

    Mensagens trocadas fora do horário institucional.Discussões que misturam política, negócios e estratégias como se tudo fizesse parte de um mesmo círculo de intimidade.Não se trata apenas de indiscrição.Trata-se de uma cultura.Em democracias institucionalmente maduras encontros entre empresários e autoridades são tratados com certa liturgia. 

     Há formalidade, reserva,  consciência de que o poder público não pode ser confundido com relações pessoais. 

    No Brasil, porém, muitas vezes parece haver outra lógica em funcionamento.A política se mistura com o privado.O acesso vira moeda de prestígio.E, reuniões institucionais, acabam narradas como conquistas pessoais.Mais curioso ainda é quando, no meio dessa informalidade, surge uma preocupação aparentemente nobre com a concentração do sistema bancário. 

     Sugere-se que um banco não deveria ser vendido por um valor simbólico para não fortalecer ainda mais os grandes conglomerados.O argumento soa bonito.Quase republicano.Mas carrega uma ironia difícil de ignorar.O sistema bancário brasileiro já é um dos mais concentrados do planeta.Décadas de fusões e crises consolidaram um ambiente dominado por poucos gigantes.E raramente essa concentração pareceu causar grande inquietação nos corredores do poder. 

     O que realmente impressiona nesses diálogos não é apenas o conteúdo. É o tom. A leveza com que assuntos de Estado são tratados. A naturalidade com que o poder circula entre conversas pessoais. A banalidade com que temas institucionais aparecem misturados a comentários triviais. 

     No fundo, essas mensagens revelam algo que muitos no mercado já conhecem há décadas: o Brasil funciona em grande parte através de relações. 

    Relações pessoais, informais, que atravessam as instituições, os cargos e os interesses. 

    E que, às vezes, atravessam também madrugadas. 

     Talvez essa seja a verdadeira fotografia de uma parte das nossas elites. Um país onde o poder não desaparece — apenas muda de sala. Sai do gabinete. Entra no celular. 

    E, termina transformado em diálogo doméstico.