Diploma Póstumo de Stuart Angel, na UFRJ
Rio de janeiro

Diploma Póstumo de Stuart Angel, na UFRJ

Diploma Póstumo de Stuart Angel, na UFRJ Rio de janeiro

  Com a presença do reitor Roberto Medronho,  de amigos, amigas e da irmã do ex-estudante de Economia,  Hildegard Angel, a UFRJ concederá ao ex-estudante Stuart Angel o diploma póstumo do Curso de Economia, no dia 7 de julho, próxima terça-feira,   às 16h30,  no Salão Dourado do Palácio Universitário,  no Campus da Praia Vermelha.  

 Stuart Angel não pôde concluir o curso de Economia porque foi preso, brutalmente torturado e assassinado pela ditadura militar, em 1971. 

  Filho do ex-ministro do Trabalho e ex-presidente da Superintendência da Reforma Agrária no Governo Jango, João Pinheiro Neto – preso e cassado por ato institucional, em abril de 1964- o economista Henrique Pinheiro, produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária, comentou que a homenagem ” já deveria ter acontecido há mais de meio século”: 

 ” Mas Stuart não estará lá. Não receberá aplausos. Não vestirá a beca. Não tirará fotografias ao lado dos colegas. Porque Stuart Angel foi assassinado pela ditadura militar brasileira em maio de 1971, aos 25 anos de idade. Filho da estilista Zuzu Angel (1921-1976), Stuart era estudante de Economia da UFRJ. Tinha apenas 25 anos quando foi preso por agentes da repressão. Sua vida acadêmica foi interrompida de forma brutal. Nunca concluiu o curso. Nunca participou de uma formatura. Nunca recebeu o diploma que sonhava conquistar.A cerimônia será apenas simbólica. Mas o seu significado é imenso. Afinal, a ditadura conseguiu prender Stuart. Conseguiu torturá-lo. Conseguiu matá-lo. Mas não conseguiu apagar sua memória ” – afirmou Henrique.  

 O economista, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor,  falou, também, sobre a mãe de Stuart,  a estilista Zuzu Angel: 

  ” Sua mãe passou o resto da vida procurando respostas. E foi justamente aí que nasceu uma das histórias mais comoventes da resistência à ditadura.
 Zuzu Angel poderia ter escolhido o silêncio. Poderia ter se recolhido à dor. Poderia ter aceitado a versão oficial. Não aceitou.Transformou a própria vida numa cruzada pela verdade. Usou a fama internacional conquistada no mundo da moda para denunciar o desaparecimento do filho.   Levou sua luta para os Estados Unidos. Enfrentou diplomatas. Confrontou autoridades. Falou com jornalistas. Escreveu cartas. Bateu em portas que ninguém tinha coragem de bater” 
 ” Enquanto muitos tinham medo, Zuzu gritava. Sabia que estava enfrentando homens poderosos. Sabia que corria riscos. Tão consciente estava do perigo que deixou um bilhete para Chico Buarque. Nele escreveu que, se algum dia aparecesse morta em circunstâncias estranhas, a responsabilidade deveria recair sobre os mesmos homens que haviam matado Stuart”- lembrou o produtor executivo de cinema.  

  Para Henrique Pinheiro, Zuzu tinha um  pressentimento:
 ” Não era paranoia.  Em 14 de abril de 1976, faltando apenas um mês para o quinto aniversário da morte de Stuart Angel, Zuzu Angel morreu em um misterioso acidente automobilístico no Rio de Janeiro. Décadas depois, o Estado brasileiro reconheceria que sua morte teve motivação política. A mãe que dedicou os últimos anos da vida à busca da verdade sobre o destino do filho tornou-se mais uma vítima da ditadura.Mas a história não terminou ali.Se a ditadura matou Stuart e mais tarde calou Zuzu Angel, não conseguiu destruir a memória da família. 

 Essa missão foi assumida por Hildegard Angel, irmã de Stuart e filha de Zuzu. Ao longo de décadas, Hildegard transformou a preservação da memória do irmão e da mãe em uma verdadeira causa de vida. Como jornalista e escritora, reuniu documentos, concedeu entrevistas, participou de debates públicos e ajudou a impedir que uma das histórias mais dolorosas da ditadura brasileira fosse esquecida ” . 

 De acordo com o economista, “graças à  persistência de Hildegard Angel, a trajetória de Stuart Angel e a luta de Zuzu Angel atravessaram gerações. Se Stuart se tornou símbolo da violência da ditadura e Zuzu símbolo do amor de uma mãe, Hildegard tornou-se símbolo da resistência da memória.Poucas histórias resumem tão bem a violência daqueles anos. Primeiro mataram o filho. Depois tentaram calar a mãe. Mas fracassaram. Cinquenta e cinco anos depois, Stuart Angel finalmente receberá o diploma que sonhava conquistar”- concluiu Henrique Pinheiro.  

  Foto (Divulgação): Henrique Pinheiro e Hildegard Angel.