março 6, 2026
Rio de janeiro

Do Latifúndio às Encostas: A Conta que o Brasil Insiste em Pagar

Do Latifúndio às Encostas: A Conta que o Brasil Insiste em Pagar Rio de janeiro

     Henrique Pinheiro * 

     * Economista e produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária.  

 

    O Brasil nunca resolveu o campo, nem organizou a cidade e, todo verão, a conta chega.  

     As imagens se repetem: encostas desabam, casas são destruídas, famílias perdem tudo. A chuva aparece como causa, mas o problema é muito mais antigo.  

      O modelo agrícola brasileiro se consolidou com grandes propriedades e alta mecanização. A produção aumentou, o país virou potência agrícola, mas o emprego no campo diminuiu.  

      O grande latifúndio produz muito, mas emprega pouco. Milhões deixaram a zona rural porque não encontraram condições para permanecer.  

      Faltou política contínua para fortalecer o pequeno produtor, garantir crédito, assistência técnica, mercado e infraestrutura. A reforma agrária ocorreu de forma limitada e, muitas vezes, sem estrutura suficiente para manter as famílias na terra.  

     O resultado foi o êxodo rural. Essas pessoas migraram para cidades que já cresciam sem planejamento adequado.        O Brasil se urbanizou rapidamente, mas não organizou seu território com a mesma velocidade. Planos existiram, mas a execução foi fraca. A moradia formal não acompanhou o crescimento da população.  

       Sem alternativa, a ocupação irregular virou solução. Encostas e margens de rios tornaram-se bairros permanentes.  

       Áreas de risco passaram a ser o único endereço possível para quem não tinha renda suficiente para acessar o mercado formal.  

      Não é apenas excesso de chuva. As áreas de risco são conhecidas. Os mapas existem. O que falta é ação contínua.  

       Campo concentrado e cidade desordenada fazem parte do mesmo problema. O trabalhador que saiu do campo por falta de oportunidade é, muitas vezes, o morador da encosta urbana.  

      Conter deslizamentos depois da tragédia é tratar o efeito, não a causa. Reconstruir no mesmo lugar mantém o ciclo. O Brasil não precisa apenas de obras emergenciais.  

       Necessita de prioridade política, de planejamento que una política agrícola, desenvolvimento regional e organização urbana.  

       Enquanto isso não for política permanente de governo, e não apenas resposta após o desastre, a repetição continuará.  

       Em ano eleitoral, quase não se fala disso. Debate-se o imediato, evita-se o estrutural. Mas a chuva não espera eleição. Sem projeto de longo prazo, o verão continuará cobrando seu preço.