Henrique Pinheiro *
Economista e produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor, organiza o livro Crônicas que nunca contaram na escola e a série Entre Duas Cidades .
Em agosto de 1954, Getúlio Vargas voltou a encontrar pela frente um velho adversário: o brigadeiro Eduardo Gomes.
Herói dos 18 do Forte de Copacabana, em 1922, um dos nomes mais prestigiados da Aeronáutica e candidato da UDN à Presidência em 1945 e 1950, Eduardo Gomes havia sido derrotado por Getúlio nas urnas quatro anos antes.
Então veio a Rua Tonelero.
Na madrugada de 5 de agosto de 1954, um atentado contra Carlos Lacerda terminou com a morte do major Rubens Vaz, da Aeronáutica. A morte de um oficial transformou imediatamente o caso em uma questão militar.
Eduardo Gomes tornou-se uma das vozes mais influentes da reação da Aeronáutica. Na Base Aérea do Galeão foi instalado o Inquérito Policial Militar, conduzido pelo coronel João Adil de Oliveira, indicado para a função pelo próprio Getúlio Vargas.
Nascia a chamada República do Galeão.
O paradoxo é que uma investigação autorizada pelo próprio presidente acabaria se transformando em um dos principais focos de pressão sobre seu governo.
Durante aqueles dias, o Brasil parecia ter dois centros de poder: o Palácio do Catete, onde estava Getúlio, e o Galeão, onde avançava uma investigação que atingia cada vez mais o coração do governo.
Dez dias depois do atentado, em 15 de agosto, Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Getúlio, foi preso, acusado de ser o mandante do crime. Documentos foram apreendidos e a expressão “mar de lama” ganhou força. Carlos Lacerda atacava diariamente pelas páginas da Tribuna da Imprensa.
Mas uma questão permaneceria: até onde ia a investigação de um crime e onde começava a luta política pela derrubada de Getúlio?
Eduardo Gomes e Getúlio Vargas estavam, mais uma vez, em campos opostos.
Desta vez, porém, o desfecho seria trágico.
Foto: Brigadeiro Eduardo Gomes.

