Ela ficou entre o irmão e o marido
Rio de janeiro

Ela ficou entre o irmão e o marido

Ela ficou entre o irmão e o marido Rio de janeiro

Henrique Pinheiro * 

  * Filho do ex-ministro do Trabalho e ex-presidente da Superintendência da Reforma Agrária no Governo Jango, João Pinheiro Neto, economista,  produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor.  

 A história costuma guardar os nomes dos grandes líderes. Getúlio Vargas. João Goulart. Leonel Brizola. Mas poucas vezes se pergunta quem sustentou essas famílias quando o poder desabou. Neusa Goulart Brizola foi uma dessas mulheres.
 Nascida em São Borja, em 21 de janeiro de 1921, cresceu em uma tradicional família de grandes proprietários rurais. Era irmã de João Goulart, o futuro presidente da República. Anos depois, casou-se com Leonel Brizola. O padrinho do casamento foi Getúlio Vargas. Poucas mulheres estiveram tão próximas de personagens decisivos da história do Brasil.  

 Mas Neusa nunca viveu apenas à sombra deles.
 Muito antes de se tornar uma figura conhecida da política, já demonstrava sensibilidade social. Ainda jovem, pediu ao pai que instalasse uma sala de aula em uma das fazendas da família para alfabetizar os filhos dos trabalhadores rurais.
 Foi também na primeira sede do PTB que conheceu um jovem líder estudantil chamado Leonel Brizola. Apaixonaram-se. Casaram-se. Construíram uma família. Tiveram três filhos: José Vicente, João Otávio e Neusinha.
 Filha de grandes proprietários rurais, ninguém imaginava que Neusa abraçaria as ideias defendidas por Brizola, entre elas a reforma agrária.  Mas ela surpreendeu. Não apenas apoiou o projeto. Transformou sua convicção em gesto. Doou uma das fazendas que havia herdado da família para o programa de distribuição de terras promovido pelo governo do Rio Grande do Sul.
 Veio o golpe de 1964. Enquanto Brizola precisava permanecer na clandestinidade para escapar da prisão, Neusa atravessou sozinha a fronteira rumo ao Uruguai. Levava consigo os três filhos pequenos.
 Ao desembarcar em Montevidéu, cercada por jornalistas, denunciou o golpe militar e a ruptura da democracia brasileira. Começava um exílio que duraria quase quinze anos.
 Mas havia uma dor ainda mais silenciosa.
 No exílio, as duas pessoas que ela mais amava romperam politicamente.
 Seu irmão, João Goulart.
 Seu marido, Leonel Brizola.
 Jango acreditava que era preciso evitar um derramamento de sangue e buscava uma saída negociada para a crise. Brizola defendia uma resistência mais firme contra a ditadura. Neusa viu a política atravessar a própria família.
 Segundo relatos de seu filho João Otávio, aquele afastamento entre o irmão e o marido foi uma das maiores tristezas de sua vida.
 Os anos de exílio cobraram um preço alto. O isolamento, a saudade do Brasil e os conflitos familiares deixaram marcas profundas em sua saúde.   Mesmo assim, permaneceu ao lado de Brizola durante toda a travessia.
Com a Anistia, voltou ao Brasil e acompanhou a reconstrução do trabalhismo.
 Faleceu em 7 de abril de 1993, aos 72 anos.
 A história costuma celebrar os homens que ocuparam os palanques.
 Mas é impossível compreender aquele período sem reconhecer a coragem silenciosa de mulheres como Dona Neusa.
 Ela não comandou governos.
 Não fez discursos históricos.
 Não ocupou cargos públicos.
 Mas sustentou a família quando a História parecia desmoronar.
 Sua vida nos lembra que golpes de Estado não atingem apenas presidentes e líderes políticos.
 Eles atravessam lares.
 Separam irmãos.
 Obrigam famílias inteiras ao exílio.
 E, deixam cicatrizes que permanecem por gerações.
 Dona Neusa Goulart Brizola foi uma dessas mulheres que ajudaram a escrever a História sem jamais buscar os holofotes. Talvez tenha sido justamente esse silêncio que tornou sua coragem ainda maior. 

Foto de Neusa Goulart Brizola e Leonel Brizola,  com Getúlio Vargas : Acervo de família.