Exílio Financeiro
Rio de janeiro

Exílio Financeiro

Exílio Financeiro Rio de janeiro

Economista e produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor.  

   Cheguei a Montevidéu em pleno inverno, junho de 2008. O vento seco e cortante que desce do Polo Sul tem nome próprio — Pampero — e não perdoa. Ele faz a temperatura despencar e impõe à cidade uma austeridade silenciosa, quase simbólica para o momento que o mundo atravessava. 

  O escritório do Wachovia ficava em Carrasco, bairro elegante, em uma casa de arquitetura moderna uruguaia, pé-direito alto, linhas limpas, uma tentativa clara de transmitir solidez e permanência. Do lado de fora, porém, mal se enxergava a construção: a névoa espessa daquela manhã gelada encobria tudo, como se antecipasse o que viria a seguir. 

   Fomos conduzidos à sala de reuniões. A CEO do Wachovia ainda não havia chegado. O clima era de tensão e angústia. Minha família havia ficado no Rio de Janeiro. Eu estava sozinho, ali, para ouvir uma proposta que já se anunciava grave. 

   A “big boss” entrou sorridente, como se nada estivesse acontecendo. Com um tom quase entusiasmado, iniciou a apresentação: no Uruguai estaríamos mais seguros.  

   No Brasil, disse ela, as regras eram confusas; ali, ao contrário, o governo estava de braços abertos para instituições financeiras americanas. 

   Era preciso entender o pano de fundo. O Uruguai sempre cultivou a ambição de ser a “Suíça da América do Sul” — um país pequeno, estável, discreto, com legislação flexível e pouca curiosidade sobre a origem dos recursos.  

   Desde o início do século XX, sua estabilidade política o colocava como exceção regional.  

  Nos anos 1990, com o Mercosul, abriu-se ainda mais ao capital sul-americano, especialmente argentino, oferecendo segurança jurídica, sigilo e previsibilidade. Um porto seguro em meio a vizinhanças turbulentas. 

  Mas estávamos em 2008. O mundo vivia a maior crise financeira desde 1929. 

  A proposta foi direta: as contas dos nossos clientes seriam transferidas para o Wachovia Montevidéu. Quem quisesse continuar atendendo sua carteira teria de se mudar para o Uruguai. Quem recusasse perderia os clientes e retornaria ao Brasil de mãos vazias. 

  Aceitei no primeiro momento. Precisava ganhar tempo. Trazer a família, naquele cenário de colapso global, parecia temerário. Decidi fazer a ponte aérea Montevidéu–Rio, então ainda com voo direto. 

  Fui instalado provisoriamente no Sheraton. Tinha um mês para encontrar moradia definitiva. O inverno castigava. O Pampero não dava trégua. A mudança não poderia ter ocorrido em momento pior. Os clientes, já assustados com os mercados, ficaram perplexos com nossa transferência repentina. 

  Não havia escolha. Apertei o sobretudo, segui em frente e me mudei para Montevidéu. Ali vivi dois anos intensos, no olho do furacão financeiro. 

   Minha vida no Uruguai — e o desfecho da crise que redefiniu o sistema financeiro mundial — fica para o próximo artigo (e capítulo de meu livro, Crônicas de um Mercado sem Pudor).