Por William Rocha*
* Sócio do escritório Terra Rocha Advogados, professor, diretor de Inclusão Digital e Inovação da OAB-RJ.
As redes sociais transformaram expressões como “farmar aura”, “sigma”, “rizz”, “NPC”, “delulu” e tantas outras em parte do vocabulário cotidiano de crianças e adolescentes. Essas gírias surgem, viralizam e desaparecem em alta velocidade, impulsionadas por algoritmos que premiam conteúdos capazes de gerar engajamento.
À primeira vista, trata-se apenas de uma manifestação cultural típica da era digital. O problema surge quando a busca por curtidas, visualizações e reconhecimento social leva jovens a reproduzirem comportamentos de risco para “ganhar aura” perante o público.
A chamada economia da atenção estimula desafios, encenações, humilhações públicas e atitudes perigosas como forma de alcançar visibilidade. Em muitos casos, o incentivo não vem diretamente de uma pessoa, mas do próprio funcionamento das plataformas, que tendem a ampliar conteúdos com maior potencial de viralização.
Sob a perspectiva jurídica, a participação de menores exige atenção especial. A Constituição Federal, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) estabelecem um regime reforçado de proteção, pautado pelo princípio do melhor interesse da criança e do adolescente.
Isso significa que plataformas digitais devem adotar mecanismos para reduzir a exposição de menores a conteúdos nocivos, pais e responsáveis precisam exercer acompanhamento compatível com a idade da criança, escolas devem promover educação digital e pensamento crítico, influenciadores e criadores de conteúdo têm responsabilidade ética ao incentivar tendências e desafios.
Quando um desafio resulta em lesão física, dano psicológico, exposição vexatória ou violação de direitos, podem surgir consequências civis, administrativas e, em determinadas hipóteses, até criminais para os responsáveis pela sua promoção ou divulgação.
Não se trata de demonizar a cultura digital. Gírias e tendências sempre fizeram parte da juventude. O desafio contemporâneo é compreender que, na sociedade conectada, um simples modismo pode atingir milhões de pessoas em poucos minutos, produzindo impactos muito além da tela.
Mais do que acompanhar as tendências, é necessário desenvolver letramento digital, educação para o uso responsável das redes e uma cultura de proteção integral dos menores. A verdadeira “aura” da sociedade digital não deve ser medida pelo número de visualizações, mas pela capacidade de utilizar a tecnologia com ética, responsabilidade e respeito aos direitos fundamentais.


