A Frente Ampla completa 60 anos em 2026 como um dos episódios políticos mais simbólicos do período da ditadura militar brasileira.
Criada em 1966, a Frente Ampla reuniu três personagens centrais da política nacional: Juscelino Kubitschek, João Goulart e Carlos Lacerda.
A união parecia improvável. Lacerda havia sido um dos principais apoiadores do golpe de 1964. JK tentava inicialmente preservar espaços institucionais. Jango estava exilado no Uruguai após ser deposto pelos militares.
Mas o AI-2, decretado em outubro de 1965, mudou completamente o cenário político brasileiro. O regime extinguiu os partidos políticos e deixou claro que a promessa de rápida devolução do poder aos civis não existia mais.
Foi nesse ambiente que nasceu a Frente Ampla.
O movimento defendia anistia, redemocratização e eleições diretas. Mais do que uma simples aliança eleitoral, representava a tentativa de reorganização da oposição civil contra o endurecimento do regime militar.
O general Golbery do Couto e Silva entendia o peso político daquela união. JK, Jango e Lacerda juntos poderiam reconstruir uma força nacional capaz de ameaçar o controle militar sobre o país.
Em abril de 1968, a Frente Ampla foi oficialmente proibida pela ditadura. Meses depois viria o AI-5, abrindo o período mais duro da repressão política brasileira.
Pouco tempo depois, outro elemento passaria a cercar a história daqueles líderes: a Operação Condor.
Formalizada em 1975, a Operação Condor integrou os serviços de inteligência e repressão de países como Brasil, Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai, com apoio estratégico dos Estados Unidos durante a Guerra Fria.
O objetivo era monitorar, perseguir e eliminar opositores políticos além das fronteiras nacionais.
Foi nesse ambiente que ocorreram as mortes dos três principais líderes da Frente Ampla.
JK morreu em 22 de agosto de 1976, num acidente de carro cercado de dúvidas até hoje. Décadas depois, investigações levantaram suspeitas sobre possível atentado político.
Em algumas versões, Geraldo Ribeiro, motorista e homem de confiança de JK, teria percebido o carro “diferente” ou “pesado”, levantando suspeitas de adulteração mecânica.
Jango morreu em 6 de dezembro de 1976, na Argentina, oficialmente vítima de um infarto.
Mais tarde surgiram suspeitas de possível envenenamento no contexto da Operação Condor.
Lacerda morreu em 21 de maio de 1977.
Entrou no hospital com um quadro de gripe e poucos dias depois morreu após um infarto, episódio que também alimenta dúvidas históricas até hoje.
Não existem provas definitivas sobre assassinato nos três casos.
Mas a coincidência histórica impressiona: em menos de um ano desapareceram os três principais líderes civis que haviam tentado construir uma frente democrática contra a ditadura militar brasileira.


