JK-65: O dia em que a ditadura cassou o futuro
Rio de janeiro

JK-65: O dia em que a ditadura cassou o futuro

JK-65: O dia em que a ditadura cassou o futuro Rio de janeiro

  Henrique Pinheiro * 

   * Economista e produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor.  

  Há 62 anos, em 8 de junho de 1964, o marechal Humberto de Alencar Castello Branco assinava a cassação dos direitos políticos de Juscelino Kubitschek.
  Oficialmente, tratava-se de um ato administrativo baseado no Ato Institucional nº 1. Na prática, era um golpe dentro do golpe. 

  JK não foi cassado por corrupção, violência ou qualquer crime contra o Estado. Foi cassado porque representava uma ameaça política ao novo regime.
  Ele era o político mais popular do Brasil. Pesquisas da época indicavam que Juscelino liderava as intenções de voto para a eleição presidencial prevista para 1965. A campanha  “JK-65”, mobilizava apoiadores em todo o país e apontava para um  retorno do ex-presidente ao Palácio do Planalto pelo voto popular. 

 Os militares compreenderam rapidamente que seria impossível consolidar o novo regime permitindo que o principal líder civil do país disputasse eleições livres.
 A solução foi simples: eliminar o adversário. Primeiro cassaram JK.
 Depois cancelaram as eleições.
 Em seguida,  cassaram governadores, parlamentares, lideranças sindicais e centenas de cidadãos brasileiros.
 A promessa de uma intervenção temporária para restaurar a democracia começou a revelar sua verdadeira natureza.
 Curiosamente, muitos dos que apoiaram o movimento de 1964 acreditavam sinceramente que o país retornaria à normalidade institucional em pouco tempo.
 Entre eles estavam figuras importantes da política nacional.
 Mas a cassação de JK foi um sinal inequívoco de que o caminho escolhido seria outro.
 Não haveria eleições livres, nem alternância de poder.
 Não haveria espaço para a oposição. 

Dois anos depois, o próprio Carlos Lacerda, um dos mais destacados apoiadores da deposição de João Goulart, passaria a denunciar os rumos do regime e se uniria a JK e a João Goulart na Frente Ampla.
 Era tarde.
 A ditadura já havia decidido permanecer.
 A cassação de Juscelino não retirou apenas os direitos políticos de um ex-presidente.
 Retirou dos brasileiros o direito de escolher livremente seus governantes.
 Sessenta e dois anos depois, vale lembrar que a democracia não morre apenas quando tanques ocupam as ruas. 

 Ela também morre quando se impede que o povo escolha, pelo voto, aqueles que deseja ver no poder.
 Em 8 de junho de 1964, não foi apenas JK que foi cassado.
Foi o futuro democrático do Brasil. 

Foto: Folhapress ( Acervo).