Henrique Pinheiro *
Economista, produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor.
O reconhecimento oficial do assassinato de Juscelino Kubitschek reabre uma das páginas mais obscuras da história brasileira e impõe ao país o dever de buscar toda a verdade.
Após quase cinquenta anos de dúvidas, investigações e silêncio, o Estado brasileiro reconhece que Juscelino Kubitschek não morreu em um simples acidente de automóvel. A pergunta que surge agora é inevitável: e agora, Brasil?
A reportagem publicada por O Globo, revelando a decisão da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, representa um marco histórico. Pela primeira vez, uma instância oficial do Estado brasileiro conclui que a morte de Juscelino Kubitschek de Oliveira (1902-1976) foi resultado de violência política durante o regime militar.
Durante décadas, familiares, jornalistas, pesquisadores e amigos de JK recusaram-se a aceitar a versão oficial. Entre eles estava Anna Cristina Kubitschek, neta do ex-presidente, que nunca acreditou que seu avô tivesse sido vítima de um simples acidente na Via Dutra.
As dúvidas sempre estiveram presentes.
A rapidez com que a cena foi desmontada, as falhas na investigação, o desaparecimento de evidências e as inúmeras contradições do caso alimentaram suspeitas desde o primeiro momento. O fiel motorista de JK, Geraldo Ribeiro, segundo relatos posteriores, chegou a comentar que percebia algo diferente no veículo antes da viagem. O alerta jamais foi devidamente esclarecido.
Mas a morte de JK não pode ser analisada isoladamente.
Para compreender sua dimensão política, é preciso voltar a 28 de outubro de 1966, data da criação da Frente Ampla. O movimento reuniu três figuras centrais da política brasileira: Juscelino Kubitschek, João Goulart e Carlos Lacerda.
Poucas alianças causaram tanto temor ao regime militar.
Homens que haviam estado em campos políticos opostos compreenderam que a ditadura não pretendia devolver o poder aos civis e decidiram unir forças em defesa da democracia. A resposta do regime foi imediata. A Frente Ampla foi perseguida, censurada e posteriormente proibida.
Dez anos depois, seus três principais líderes estavam mortos.
JK morreu em 22 de agosto de 1976.
João Goulart morreu no exílio argentino em 6 de dezembro de 1976. Foi enterrado às pressas, de pijama, em um caixão fechado e sem autópsia. Sua família jamais aceitou plenamente a versão oficial de sua morte.
Em 2013, a presidente Dilma Rousseff determinou a exumação dos restos mortais de Jango na tentativa de esclarecer as suspeitas de envenenamento. Quase quarenta anos haviam se passado. O tempo destruiu vestígios fundamentais. O laudo não conseguiu comprovar o assassinato, mas também não conseguiu descartá-lo.
Em 21 de maio de 1977, Carlos Lacerda morreu aos 63 anos. Internado com um quadro de gripe considerado simples, sofreu um infarto fulminante poucos dias depois. Sua morte também jamais deixou de levantar questionamentos.
Em menos de nove meses, os três líderes da Frente Ampla desapareceram da vida política brasileira.
Foi essa sequência de acontecimentos que levou Carlos Heitor Cony a publicar, em 2003, o livro O Beijo da Morte. Cony teve a coragem de formular uma hipótese que muitos preferiam ignorar: as mortes de JK, Jango e Lacerda poderiam estar ligadas por um mesmo contexto político.
Passadas mais de duas décadas, as suspeitas de Cony ganharam novo significado.
O reconhecimento oficial do assassinato de JK não encerra a discussão. Ao contrário. Ele inaugura uma nova etapa.
O primeiro passo é retificar a certidão de óbito de Juscelino Kubitschek. O Estado brasileiro não pode continuar registrando como acidente aquilo que agora reconhece como assassinato político.
O segundo é aprofundar as investigações, abrir arquivos ainda protegidos pelo tempo e identificar responsabilidades.
Quem ordenou? Quem executou? Quem encobriu? Quem destruiu provas? Quem trabalhou durante décadas para que a verdade não viesse à tona?
Essas perguntas não pertencem apenas à família Kubitschek.
Pertencem ao Brasil.
Passar a história a limpo não é revanchismo. É um dever democrático.
Nenhuma nação constrói um futuro sólido escondendo os crimes de seu passado.
A verdade demorou quase cinquenta anos para emergir.
Mas ela finalmente começou a romper o silêncio.
Agora cabe ao Brasil decidir se terá coragem de seguir até o fim.


