Jorge Guinle. Entre o brilho e a conta que não fechava.
Rio de janeiro

Jorge Guinle. Entre o brilho e a conta que não fechava.

Jorge Guinle. Entre o brilho e a conta que não fechava. Rio de janeiro

      Henrique Pinheiro * 

       Economista e produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária, autor de Crônica de um Mercado sem Pudor.  

 

    Em meu livro,  Crônica de um Mercado sem Pudor, que será lançado, em breve, no Rio de Janeiro, escrevi alguns capítulos sobre Jorginho Guinle.  

    Considerava Jorge Guinle mais do que um cliente.
     Foi amigo, confidente e personagem central de um período que me marcou profundamente.
    Os dólares guardados no cofre do Banco Boavista não duraram muitos anos.
     A cada viagem à Europa com sua esposa, um naco importante era retirado.
    Paris era o destino preferencial — e o consumo, à altura da memória que ele carregava.
     Quando o cofre finalmente esvaziou, Jorge procurou o primo Francisco de Paula Machado, acionista do banco e então presidente do Jockey Club Brasileiro. 

      Amigos desde os tempos das calças curtas, Jorge explicou a dureza financeira em que se encontrava.
       Na prática, queria um empréstimo pessoal do primo.
       Francisco achou melhor que fosse um empréstimo formal, concedido pelo banco.
       Esse empréstimo virou o pesadelo de Jorge — e o pano de fundo dos nossos almoços.
       Passamos a nos encontrar todas as sextas-feiras no Saint Honoré.
       Não havia garantias reais, apenas um acordo tácito com os Paula Machado. À medida que Jorge vendesse os bens que ainda lhe restavam, poderia abater a dívida.
      O problema era simples e cruel. Os juros bancários cresciam de forma exponencial.
      A venda dos ativos, não.
       Em pouco tempo, a dívida se tornou impagável.
      O tema dos almoços era sempre o mesmo: o que o Banco Boavista faria para recuperar aquele empréstimo.
      Meu papel era tentar acalmá-lo, ainda que eu soubesse da verdade.
Jorge não teria condições de pagar.
       Essa dualidade me corroía.
       Eu já havia criado um vínculo de amizade, mas era funcionário do banco ao qual ele devia dinheiro.
      Sabia, com clareza incômoda, que o desfecho não seria bom.
      Falávamos, então, de outras coisas.
      Jorge gostava de dizer que nunca teve carteira de trabalho.
      Achava que ter sido herdeiro, nesse sentido, mais atrapalhou do que ajudou.
      Nunca soube o que era caro ou barato.
      Imagine alguém que nunca recebeu um salário pelo próprio esforço.
      Entre as histórias que mais me marcaram,a inauguração do Copacabana Palace.
     Jorge, aos sete anos, de pijama, assistindo à festa do alto das escadarias, ao lado do amigo inseparável Joaquim Monteiro de Carvalho, o Baby.
      Anos depois, Baby teria papel fundamental no final da sua vida.
      Outra história recorrente: os 200 dólares pagos, em 1946, por uma noite com Marilyn Monroe,
ela aos 20 anos, começando em Hollywood. Jorge, com 31, já vivendo dentro do mito.
     Havia também a festa na casa de Vincente Minnelli, pai de Liza Minnelli.
      A piscina construída às escondidas em Bel Air, California, revelada no aniversário de Judy Garland,
iluminada, monumental, absolutamente cinematográfica.
       Conversar com Jorge era viver um filme de Hollywood.
     Mas, no íntimo, eu sabia: aquele roteiro não teria final feliz.