Mês da Mulher reforça desafios e urgências em saúde feminina no Brasil
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Mês da Mulher reforça desafios e urgências em saúde feminina no Brasil

Mês da Mulher reforça desafios e urgências em saúde feminina no Brasil Saúde
Da adolescência à menopausa, médica destaca que garantir saúde integral às mulheres é enfrentar tabus, prevenir violências e ampliar o acesso à informação e ao cuidado qualificado
Celebrado internacionalmente como um marco de luta por direitos, o Dia Internacional da Mulher vai além das homenagens e convida à reflexão sobre os desafios que ainda atravessam a vida feminina. Na área da saúde, esses desafios se expressam desde a adolescência até o envelhecimento, exigindo políticas públicas contínuas, informação qualificada e um olhar que considere o corpo feminino em sua complexidade biológica, emocional e social.
Para a ginecologista, obstetra e fetóloga Dra. Angélia Iara, cuidar da saúde da mulher é compreender que escolhas e vulnerabilidades são construídas em contextos muitas vezes desiguais. A gravidez na adolescência, por exemplo, segue como um importante problema de saúde pública no Brasil, frequentemente associada à falta de informação, ao tabu em torno da sexualidade feminina e à dificuldade de diálogo dentro das famílias. “Falar sobre sexualidade não é incentivar comportamentos precoces, é proteger. Informação clara e acesso ao cuidado reduzem riscos e ampliam possibilidades de futuro”, afirma a médica.
Esse silêncio imposto ao corpo feminino acompanha muitas mulheres ao longo da vida e se manifesta também na dificuldade de acesso ao planejamento familiar, no medo de falar sobre prazer, na culpa associada às escolhas reprodutivas e na naturalização da dor. “Quando a mulher não se sente livre para ser quem é, para compreender o próprio corpo e tomar decisões informadas, ela adoece”, pontua Dra. Angélia Iara.
A violência contra a mulher, seja física, sexual ou psicológica, também atravessa a saúde feminina de forma profunda. Dados nacionais e internacionais indicam que uma parcela expressiva das mulheres sofrerá algum tipo de violência ao longo da vida, o que impacta diretamente a saúde mental, a vida reprodutiva e o acesso aos serviços de saúde. “O sistema de saúde precisa estar preparado para acolher, identificar sinais de violência e atuar como rede de proteção. Violência não é apenas um problema de segurança pública, é uma questão central de saúde”, destaca.
Violência obstétrica
No campo da obstetrícia, os desafios continuam. A mortalidade materna, o acesso desigual ao pré-natal de qualidade e a violência obstétrica revelam que ainda há falhas importantes no cuidado às mulheres durante a gestação, o parto e o pós-parto. “Garantir um parto seguro e respeitoso é garantir dignidade. O cuidado obstétrico precisa ser baseado em ciência, escuta e respeito aos direitos da mulher”, afirma a especialista.
Essas lacunas também se refletem nas fases posteriores da vida feminina. O climatério e a menopausa, por exemplo, ainda são vividos por muitas mulheres em silêncio, sem orientação adequada e com sintomas minimizados. “A saúde da mulher não termina no fim do período reprodutivo. Ela exige atenção contínua, prevenção de doenças, cuidado hormonal e qualidade de vida”, reforça Dra. Angélia Iara.
Para a médica, o Dia Internacional da Mulher deve ser um marco de compromisso com ações concretas. “Falar de saúde da mulher é falar de políticas públicas, de educação, de autonomia e de acesso. É reconhecer que cuidar das mulheres em todas as fases da vida é investir em uma sociedade mais saudável, justa e humana”, conclui.
Sobre a especialista
Dra. Angélia Iara é ginecologista, obstetra e fetóloga, com atuação em Brasília, focada em cuidado humanizado, prevenção, planejamento reprodutivo e acompanhamento integral da saúde da mulher.