Henrique Pinheiro *
* Economista e Produtor Executivo de Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária, autor de Crônica de um Mercado sem Pudor.
Na reta final de março de 1964,o golpe já estava em marcha. Não começou no dia 31de março. Apenas se consumou ali.
O comício da Central do Brasil e o discurso no Automóvel Clube marcaram a ruptura definitiva entre o governo constitucional de João Goulart e a cúpula militar que conspirava abertamente contra ele.
Jango já havia perdido o comando efetivo de tropas decisivas em Minas Gerais e no antigo Estado da Guanabara.
O governador mineiro Magalhães Pinto e o líder conservador Carlos Lacerda atuavam em sintonia com oficiais golpistas.
O general Olímpio Mourão Filho antecipou o movimento e colocou suas tropas na estrada rumo ao Rio de Janeiro, detonando a insurreição antes mesmo do cronograma original.
No Sul, a situação era distinta. Havia forças legalistas ainda fiéis a Jango e a Leonel Brizola—as mesmas que haviam sustentado a Campanha da Legalidade em 1961.
Brizola defendia reação imediata.Tropas gaúchas poderiam marchar para restabelecer a autoridade constitucional. Mas o cenário já ultrapassava as fronteiras nacionais.Os Estados Unidos haviam acionado a Operação Brother Sam.
Uma força naval com porta-aviões, destróieres, petroleiros e armamentos deslocava-se para a costa brasileira para apoiar os insurgentes caso houvesse resistência.
O recado era inequívoco:qualquer tentativa de contra-golpe enfrentaria não apenas militares brasileiros, mas também o peso da Guerra Fria.O embaixador americano Lincoln Gordon atuava como elo político e logístico dessa operação,em contato permanente com os conspiradores.
Diante desse quadro,Jango fez uma escolha dramática. Recusou-se a ordenar um confronto armado entre brasileiros,ainda mais sob a ameaça de intervenção estrangeira. Deixou Brasília e seguiu para Porto Alegre e, depois, para São Borja, onde Brizola tentava organizar a resistência.Esperava-se a repetição da Legalidade, mas desta vez o apoio militar não se consolidou.
Generais hesitaram, comandos dividiram-se e a correlação de forças virou rapidamente. Para profunda frustração de Brizola, não houve reação.Como deputado federal, sua capacidade política era insuficiente sem respaldo das Forças Armadas.
Em Brasília, entre o dia primeiro de abril e o início da madrugada de 2 de abril de 1964, o Congresso declarou vaga a Presidência sob a alegação de que o chefe de Estado havia abandonado o país—mesmo ele permanecendo em território nacional.
Criou-se uma ficção jurídica para legitimar o novo regime. João Goulart, o estancieiro gaúcho, decidiu não comprar a guerra. Não foi falta de coragem, mas decisão política para evitar uma guerra civil de consequências imprevisíveis.
O preço foi alto.O país mergulhou em uma ditadura que duraria 21 anos. Décadas depois,a pergunta recorrente é por que Jango não resistiu. Pouco se pergunta sobre quantos mortos teria custado essa resistência.
A crise de 1964 não foi apenas doméstica. Foi um episódio da Guerra Fria no hemisfério sul, com interesses estratégicos globais em jogo. Naquele março, o Brasil não escolheu apenas um novo regime.
Escolheu evitar a guerra.
Mas, também, abriu mão da democracia.
Foto ( Arquivo Nacional): Rio de Janeiro, 31 de março de 1964.

