Por Henrique Pinheiro *
* Economista, produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto, filho de João Pinheiro Neto, amigo de JK e testemunha de uma geração que acreditou que o Brasil podia sonhar grande.
Amigo pessoal de Juscelino Kubitschek, Serafim Jardim dedicou quase meio século a preservar sua memória e a buscar respostas para uma das maiores controvérsias da história política brasileira.
Enquanto o Brasil seguia em frente e a morte de Juscelino Kubitschek era, oficialmente, tratada como um acidente de trânsito, um homem se recusava a encerrar o assunto. Seu nome era Serafim Jardim.
Amigo pessoal de JK durante quase uma década, Serafim conheceu de perto não apenas o presidente que construiu Brasília e acelerou a industrialização do país, mas também o homem que sofreu os anos de perseguição política após o golpe de 1964.
Passadas poucas horas da morte de Juscelino, em 22 de agosto de 1976, a versão oficial já estava pronta. O país deveria acreditar que tudo não passara de uma fatalidade na Via Dutra. Mas Serafim não se conformou.
Durante anos, reuniu documentos, ouviu testemunhas, analisou laudos e procurou respostas para perguntas que permaneciam sem explicação.
Em uma época em que questionar a versão oficial ainda era visto com desconfiança, ele decidiu transformar sua inquietação em uma missão.
Foi Serafim quem escreveu ao presidente Fernando Henrique Cardoso pedindo a reabertura das investigações.
Foi ele quem percorreu gabinetes, buscou apoio de juristas, policiais, historiadores e parlamentares. E, também, quem ajudou a trazer novamente o caso ao debate público quando a maior parte do país já parecia resignada ao esquecimento.
Seu livro, Juscelino Kubitschek: Onde Está a Verdade?, tornou-se uma das primeiras obras dedicadas exclusivamente à investigação das circunstâncias da morte do ex-presidente.
Ao longo de quase meio século, Serafim enfrentou a indiferença, a descrença e, muitas vezes, o silêncio. Mas não desistiu.
Continuou pesquisando, reunindo evidências e preservando a memória de um amigo que acreditava ter sido vítima de uma perseguição que não terminou com o exílio e a cassação de seus direitos políticos.
O tempo passou. E o que durante décadas foi tratado por muitos como mera suspeita passou a ocupar espaço no debate histórico e institucional brasileiro.
Relatórios, investigações e o reconhecimento de órgãos oficiais deram nova dimensão às teses defendidas por Serafim.
Hoje, até importantes veículos da imprensa nacional abordam a morte de JK sob uma perspectiva muito diferente daquela apresentada em 1976.
Por isso, a história de Serafim Jardim não é apenas a história de um amigo fiel de Juscelino Kubitschek. É a história de um homem que dedicou grande parte da própria vida à busca da verdade.
Um homem que se recusou a aceitar o esquecimento como resposta.
Hoje, aos 90 anos, continua ativo à frente da Casa de Juscelino, em Diamantina, guardando documentos, memórias e ensinamentos de uma geração que sonhou grande para o Brasil.
Mais do que um pesquisador, Serafim tornou-se um símbolo de perseverança. Mais do que um amigo, tornou-se um guardião da memória.
Poucos homens recebem da vida uma recompensa como essa. Aos 90 anos, Serafim Jardim teve a oportunidade de ver reconhecidas as suspeitas que carregou por quase meio século. Para alguém que dedicou a vida à memória de JK e à busca da verdade, talvez não exista homenagem maior.
Se hoje o Brasil continua fazendo perguntas sobre a morte de JK, é porque houve alguém que nunca aceitou que essas perguntas fossem enterradas junto com ele.


