Trump descobriu o que Roma já sabia: a Pérsia não cai
Rio de janeiro

Trump descobriu o que Roma já sabia: a Pérsia não cai

Trump descobriu o que Roma já sabia: a Pérsia não cai Rio de janeiro

    Henrique Pinheiro * 

   * Economista e Produtor Executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária, autor de Crônica de um Mercado sem Pudor.  

 

     A antiga Pérsia é o atual Irã.
     Mudam os nomes, mudam os regimes, mudam os impérios ao redor — a civilização permanece.
     Há mais de dois mil anos, potências estrangeiras aprendem a mesma lição: é possível atacar a Pérsia, sangrá-la e destruí-la parcialmente. O que não se consegue é fazê-la desaparecer como ator estratégico.
       Alexandre, o Grande — um gênio militar fora de série — foi a exceção histórica. Ele não bombardeou à distância nem apostou em sanções: invadiu, derrotou exércitos em campo aberto e ocupou o território até derrubar o Império Aquemênida. Nada na operação atual lembra essa capacidade estratégica. Comparar Alexandre a Trump ou Netanyahu é ignorar dois milênios de história militar.
     Os gregos venceram batalhas decisivas, como Salamina, mas nunca conquistaram o coração persa. Roma sofreu derrotas devastadoras, como Carras, onde legiões inteiras foram aniquiladas pelos partas. Séculos de guerra produziram apenas um empate sangrento. Nenhum império conseguiu destruir o outro.
      A explicação é concreta.
       O Irã é um país continental, montanhoso e com enorme profundidade estratégica. Cadeias como os Zagros funcionam como muralhas naturais. Não é território para campanhas rápidas nem ocupações fáceis. Quem entra precisa sustentar linhas de suprimento gigantescas sob pressão constante.
     Há também um fator invisível: identidade nacional.
       A cultura persa sobreviveu aos árabes, mongóis e turcos, muitas vezes assimilando os próprios conquistadores. É uma civilização mais antiga que a maioria dos Estados que hoje a confrontam.
      No século XX, Saddam Hussein invadiu o Irã com apoio externo e armamento moderno. O resultado foi uma guerra de oito anos com perdas colossais — e nenhuma vitória decisiva. O país resistiu e permaneceu inteiro.
      Hoje, Israel e Estados Unidos dominam o ar, a tecnologia e a capacidade de destruição remota. Mas não ocupam o território — e sem ocupação não há conquista. Bombardeios degradam infraestrutura; não substituem controle político.
      Por isso o confronto desloca-se para onde Teerã possui vantagem estratégica: energia e estabilidade global.
      Ao pressionar rotas marítimas e fluxos de petróleo, o Irã consegue afetar diretamente a economia mundial. O campo de batalha deixa de ser militar e passa a ser financeiro. A arma principal não é o míssil — é o preço do barril.
      A reação dos mercados fala por si. Bastou Trump anunciar “conversas produtivas” e suspender ataques por alguns dias para bolsas dispararem e o petróleo cair. Não foi vitória geopolítica; foi alívio econômico.
     Em ano eleitoral, inflação e gasolina cara derrubam governos com mais eficiência do que qualquer adversário externo. Washington percebeu que uma escalada prolongada pode sair do controle — não militarmente, mas economicamente.
      O Irã não precisa derrotar os Estados Unidos ou Israel no campo de batalha. Precisa apenas tornar a guerra longa, cara e politicamente tóxica.
      Alexandre venceu porque ocupou.
Roma fracassou porque não conseguiu.
Saddam invadiu e saiu arruinado.
       Hoje, a estratégia ocidental parece ser pressionar sem invadir — um caminho que raramente produz rendição e frequentemente gera impasses duradouros.
       Bombardeios fortalecem a narrativa de resistência interna. Sanções isolam, mas também consolidam regimes que se legitimam pela confrontação externa.                   Enquanto isso, a economia global absorve os choques em forma de inflação, juros altos e volatilidade.
        No fim, a velha lição persiste desde a Antiguidade: a Pérsia não precisa vencer para não perder. Basta continuar existindo.