Entre a sobrevivência e a transcendência:a pedagogia política de ” Imaginações Pós-Capitalistas”
Rio de janeiro

Entre a sobrevivência e a transcendência:a pedagogia política de ” Imaginações Pós-Capitalistas”

Entre a sobrevivência e a transcendência:a pedagogia política de " Imaginações Pós-Capitalistas" Rio de janeiro

Arlindenor Pedro *  

  * Professor de História, Filosofia e Sociologia, editor do Blog, Revista Eletrônica e canal YouTube Utopias Pós Capitalistas.  

  Experiências intelectuais e políticas como a edição de Imaginações Pós-Capitalistas , o livro da Hedra/Circula Editora e com Organização de José Paulo Guedes Pinto, Fábio Luiz Barbosa dos Santos e Thaís Pavez , são para mim profundamente bem bem-vindas.  Mas, talvez, nesta resenha, para deixar mais claro, eu deva começar contextualizando o leitor sobre o próprio projeto que deu origem ao livro, porque creio que isso ajuda a compreender sua natureza e também seus limites. Vamos lá: a obra nasce de uma série de oficinas, encontros e exercícios coletivos realizados com jovens, estudantes secundaristas e universitários da UFABC e da Unifesp, em que se procurava estimular algo hoje quase ausente do debate político: a capacidade de imaginar concretamente formas de vida para além do capitalismo.   

 Os organizadores relatam, logo na introdução do livro, que esses encontros funcionavam como uma espécie de laboratório crítico-imaginativo. Partia-se sempre da experiência cotidiana. A mobilidade urbana, saúde, alimentação, trabalho, cidade, sofrimento psíquico,para depois deslocar lentamente a discussão em direção a perguntas mais radicais como por exemplo: o que nessa realidade nos parece intolerável? O que seria desejável transformar? E finalmente: como imaginar essas dimensões da vida numa sociedade pós-capitalista?   

 Esse dado inicial é importante porque revela algo essencial sobre o espírito do livro. Não se trata de uma teoria abstrata elaborada à distância da vida social concreta. O que aparece aqui é uma tentativa de reconstruir coletivamente o horizonte histórico da emancipação num momento em que a própria imaginação política parece bloqueada. 

 Digo isso porque sinto que vivemos uma época em que até mesmo a imaginação foi sequestrada pela forma mercadoria. Já não conseguimos pensar o futuro senão como continuação da catástrofe. E talvez o primeiro mérito desta obra esteja justamente em tentar romper esse cerco invisível. 

 Enquanto lia os textos reunidos no livro, tive a impressão de acompanhar algo ainda embrionário, mas historicamente necessário: a lenta reconstrução da capacidade coletiva de imaginar para além do capitalismo. Não encontrei aqui um programa político acabado, nem uma teoria sistemática da transição pós-capitalista. Encontrei algo mais raro no presente: um esforço de reaprender a desejar historicamente. 

 Isso pode parecer abstrato à primeira vista, mas não é. Afinal, uma sociedade incapaz de imaginar outra forma de vida acaba condenada a administrar indefinidamente a própria decomposição. O capitalismo tardio nos treinou para aceitar o impossível cotidiano — precarização, devastação ambiental, adoecimento psíquico, solidão social — como se fosse natureza humana. Ao mesmo tempo, qualquer tentativa de pensar para além da mercadoria aparece imediatamente como ingenuidade ou delírio. 

 É precisamente contra esse bloqueio antropológico que Imaginações Pós-Capitalistas se move.Ao acompanhar os relatos das oficinas, debates e experimentações coletivas presentes na introdução, percebi que a questão central do livro não é simplesmente “qual sociedade queremos construir?”, mas algo anterior e talvez mais difícil: “como voltar a imaginar juntos?”. Essa diferença é decisiva. O capitalismo não domina apenas a economia; ele organiza também o campo do possível. 

 Por isso considero tão importante o caráter coletivo da experiência relatada na obra. Aos poucos, práticas como essa vão criando condições subjetivas e históricas para algo que ainda mal conseguimos formular claramente: a construção futura de um projeto político capaz de servir como instrumento para um programa mínimo de negação do capitalismo. 

 Mas preciso ser claro aqui: não penso esse “programa mínimo” no sentido reformista tradicional, como mera gestão mais humana da sociedade da mercadoria. Penso antes numa base histórica inicial capaz de reunir pessoas em torno de uma percepção comum: a de que o capitalismo já não oferece qualquer horizonte civilizatório sustentável. 

 E talvez seja justamente aqui que o livro revele uma de suas implicações políticas mais profundas, ainda que ela apareça apenas de maneira latente. Porque experiências como essa não produzem apenas reflexão intelectual; elas ajudam lentamente a disputar corações e mentes para um outro horizonte civilizatório. Num período histórico em que o capital colonizou não apenas a produção material, mas também os desejos, os afetos e o imaginário social, torna-se impossível pensar qualquer transformação radical sem uma batalha cultural e subjetiva de longa duração. 

 Enquanto lia os debates e os exercícios imaginativos propostos na obra, tive a sensação de que ali se esboça algo que pode influenciar futuramente a formação de uma nova geração de lideranças populares. Não lideranças moldadas apenas pela administração imediata das carências sociais dentro da ordem existente, mas sujeitos capazes de partir das lutas imanentes da sobrevivência cotidiana como transporte, alimentação, moradia, saúde mental, trabalho, violência social e elevá-las gradualmente a uma consciência que comece a transcender os limites do próprio capitalismo. 

 Isso me parece decisivo. Porque ninguém luta imediatamente pela abolição do valor ou pela superação da mercadoria em abstrato. As pessoas lutam porque sofrem. Lutam porque trabalham até a exaustão. Porque adoecem, vivem sob medo permanente, sentem o vazio de uma vida subordinada à concorrência universal.  Mas essas lutas permanecem frequentemente aprisionadas no interior das categorias do próprio capital. O desafio histórico talvez seja justamente transformar experiências fragmentadas de sofrimento em experiências conscientes de transcendência histórica. Nesse sentido, livros como Imaginações Pós-Capitalistas possuem uma função pedagógica e política muito maior do que aparentam à primeira vista. Eles ajudam a criar mediações entre a luta imediata pela sobrevivência e a lenta formação de uma consciência orientada para formas de vida já não organizadas pela lógica do valor, do dinheiro e da mercadoria.Talvez estejamos ainda muito longe de uma ruptura efetiva com as categorias fundamentais do capital. Trabalho abstrato, dinheiro, mercadoria, concorrência e Estado continuam estruturando profundamente nossa experiência social. Contudo, sinto que livros como este ajudam a formar algo preliminar, porém indispensável: uma corrente humana que comece a desejar conscientemente formas pós-capitalistas de existência.E o que mais me chamou atenção foi justamente o fato de que essas reflexões não aparecem como fuga idealista da realidade. Pelo contrário. Tudo emerge do interior das próprias contradições da vida cotidiana: o sofrimento urbano, a mercantilização da alimentação, o esgotamento do trabalho, a crise ecológica, o colapso da saúde mental, a dissolução dos vínculos humanos. É a partir dessas fissuras concretas que a imaginação começa lentamente a se mover. 

 Em vários momentos do livro, percebi perguntas que considero decisivas para qualquer crítica radical do presente: seria possível uma sociedade em que o acesso à riqueza não dependesse da mediação do dinheiro? Seria possível organizar a vida social para além da concorrência universal? O trabalho precisaria continuar sendo o centro da existência humana?  Essas perguntas me parecem extremamente importantes porque deslocam o debate para além do velho imaginário produtivista da esquerda tradicional. Aqui já não se trata apenas de redistribuir melhor a riqueza produzida pelo capital, mas de começar a questionar as próprias categorias históricas que organizam a modernidade capitalista.Naturalmente, a obra possui limites. Alguns textos permanecem mais próximos de exercícios utópicos descritivos; outros às vezes recaem em certo moralismo ecológico ou comunitarista. Em determinados momentos, senti falta de uma crítica mais rigorosa da forma valor e das mediações estruturais do capital. Afinal, o capitalismo não se dissolve simplesmente por vontade ética ou transformação cultural localizada.Mas talvez exigir dessa obra uma elaboração teórica plenamente sistemática fosse perder de vista sua verdadeira potência. Imaginações Pós-Capitalistas funciona menos como doutrina acabada e mais como laboratório histórico da imaginação emancipatória.E isso, no nosso tempo, já possui enorme relevância. 

 Vivemos numa época em que até mesmo a esquerda frequentemente já não consegue pensar historicamente. Oscila entre a administração melancólica da barbárie e pequenas reformas defensivas incapazes de tocar os fundamentos da sociedade da mercadoria. Nesse contexto, reencontrar a imaginação talvez seja uma tarefa material da própria crítica social.Ao terminar o livro, fiquei com a impressão de que sua maior contribuição não está nas respostas que oferece, mas nas perguntas que recoloca em circulação. Como imaginar uma vida para além do trabalho abstrato? Como pensar relações sociais não fundadas na equivalência mercantil? Como reconstruir vínculos humanos numa sociedade estruturada pela concorrência permanente? 

 Ainda não temos respostas claras para isso. Mas talvez o primeiro passo histórico seja justamente reaprender a imaginar coletivamente. 

 E nesse sentido, Imaginações Pós-Capitalistas me parece menos um ponto de chegada do que um início necessário: a lenta formação de sensibilidades, desejos e experiências que, ainda no interior imanente da sociedade capitalista, começam a procurar as possibilidades concretas de sua transcendência histórica.