Henrique Pinheiro *
* Economista, produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor, filho de João Pinheiro Neto, organiza Crônicas que nunca contaram na escola e a série Entre Duas Cidades
Quando li a notícia de que finalmente será julgado o recurso movido por Tancredo Augusto Tolentino Neves, filho de Tancredo Neves (1910–1985), para obter acesso aos prontuários e demais documentos médicos da internação e da morte do pai, tive a sensação de que o tempo havia parado.
Mais de quarenta anos depois, o Brasil ainda tenta compreender um dos episódios mais marcantes da redemocratização. A ação sustenta que o sigilo médico não pode ser absoluto quando está em jogo um acontecimento que pertence também à história do país. Os conselhos de medicina defendem posição diferente. A própria matéria lembra que persistem divergências sobre o diagnóstico que levou Tancredo à morte, discussão aprofundada no livro O Paciente: O Caso Tancredo Neves, do jornalista Luís Mir.
Não escrevo para defender teorias.
Também não escrevo para apontar culpados.
Escrevo porque essa notícia me levou imediatamente ao meu pai.
João Pinheiro Neto carregou até o fim da vida as marcas de 1964. Presidente da SUPRA, responsável pela implantação da reforma agrária no governo João Goulart, foi preso, cassado e transformado, durante décadas, em um homem que muitos insistiam em chamar de “subversivo” ou “comunista”. Nunca foi nem uma coisa nem outra.
Era um democrata. Um humanista.
Costumava dizer que a vida lhe dera muito mais do que merecia e que queria apenas devolver ao Brasil um pouco do muito que recebera da sociedade.
Tancredo conhecia essa trajetória desde muito antes da redemocratização. Em 1961, foi o primeiro-ministro do governo parlamentarista criado para viabilizar a posse de João Goulart após a renúncia de Jânio Quadros. Mais tarde, já no gabinete de Hermes Lima, meu pai assumiria o Ministério do Trabalho. Pertenciam à mesma geração de políticos que acreditava ser possível transformar o país dentro da democracia e das instituições.
Em fevereiro de 1985, poucas semanas após ter sido eleito presidente da República pelo Colégio Eleitoral, em 15 de janeiro de 1985, meu pai viajou com Tancredo e Márcia Kubitschek para Washington. A fotografia que ilustra este artigo foi registrada durante sua apresentação no National Press Club, diante do governo e da imprensa americana, como o primeiro presidente civil do Brasil desde 1964. À esquerda da imagem está o embaixador do Brasil em Washington, Sérgio Corrêa da Costa.
Naquela viagem, meu pai estava feliz como eu não o via havia muitos anos.
Depois de vinte e um anos carregando as marcas da cassação política, acreditava que finalmente poderia voltar a contribuir para um projeto de país. Não buscava cargos. Queria apenas servir ao Brasil mais uma vez.
Pouco mais de dois meses depois, em 21 de abril de 1985, Tancredo morreria sem tomar posse.
Nunca ouvi meu pai levantar suspeitas sobre aquela morte.
Mas também nunca o vi compreendê-la.
Lembro-me apenas da frase que repetia, quase como um desabafo:
“Meu Deus… que país pesado.”
Hoje entendo melhor o que ele queria dizer.
Naquele dia, o Brasil perdeu mais do que um presidente eleito.
Perdeu a esperança de iniciar a Nova República sob a liderança de quem simbolizava a reconciliação nacional.
José Sarney assumiu a Presidência conforme determinava a Constituição. Mas, para muitos brasileiros, a Nova República já nascera velha.
Confesso que sua imagem na televisão sempre me transmitia essa sensação. O bigode impecavelmente aparado, o jaquetão e os modos de um político formado no regime anterior. Sua longa trajetória ao lado dos governos militares fazia parecer que o país havia mudado apenas de roupa.
Era como um velho sofá reestofado.
O tecido era novo.
Mas a estrutura continuava a mesma.
Vieram a hiperinflação, os sucessivos planos econômicos, a instabilidade e a frustração de uma geração que acreditava estar diante de um verdadeiro recomeço.
Meu pai nunca mais recuperou aquele entusiasmo.
A morte de Tancredo foi, para ele, a última pá de cal sobre qualquer esperança de voltar a participar da construção de um novo projeto nacional.
Talvez por isso essa notícia seja tão importante.
Não porque ela possa confirmar uma conspiração.
Mas porque democracias maduras não têm medo de seus arquivos.
Conhecer a verdade histórica, qualquer que ela seja, nunca enfraqueceu um país.
O silêncio, esse sim, costuma pesar por muito mais tempo.
Sempre que volto a olhar aquela fotografia feita em Washington, em fevereiro de 1985, não vejo apenas quatro pessoas diante de uma câmera.
Vejo uma geração inteira acreditando que o Brasil estava prestes a recomeçar.
E volto a ouvir a voz do meu pai, resumindo em uma única frase a frustração de uma geração inteira:
“Meu Deus… que país pesado.”
Foto ( Acervo de família): Sérgio Corrêa da Costa, João Pinheiro Neto, Tancredo Neves e Márcia Kubitschek.


