Pereira Passos Não Conseguiu Expulsar o Povo
Trabalhei quase trinta anos no Centro do Rio de Janeiro. Talvez por isso eu nunca caminhe por aquelas ruas como um turista. Sempre volto em busca da arquitetura. Gosto de olhar aqueles casarões, aquelas igrejas e aquelas fachadas centenárias, imaginando como era a vida quando foram construídos. Quem passava por aquelas ruas? Como viviam? O que conversavam? Quais eram seus sonhos e seus medos?
No último sábado, porém, a arquitetura ficou em segundo plano.
O que mais me impressionou foi o povo.
Era um povo diferente daquele que encontro nas minhas caminhadas pela Zona Sul. No Centro, o Rio parece voltar a ser uma cidade inteira. Trabalhadores, estudantes, aposentados, famílias, ambulantes, artistas, turistas. Pretos, pardos, brancos. Gente da Zona Norte, da Baixada, de Niterói, de São Gonçalo e da própria Zona Sul dividindo o mesmo espaço. Há muito tempo eu não via uma cidade tão misturada.
A Praça XV estava tomada por uma feira de artesanato popular. A Rua do Ouvidor pulsava entre mesas na calçada, samba e feijoada. O Saara e a Uruguaiana fervilhavam como um imenso mercado popular a céu aberto. O CCBB estava lotado. O Museu do Amanhã recebia famílias de todos os cantos. O MAR dialogava com a Pequena África, devolvendo protagonismo a uma parte da nossa história que durante décadas permaneceu invisível.
Passei pela Rua do Lavradio. Os antiquários transformavam as calçadas em uma verdadeira galeria a céu aberto. Móveis, espelhos, cristais e objetos centenários pareciam contar histórias a quem se dispunha a caminhar sem pressa.
Seguimos até o Paço Imperial. Sempre que entro naquele edifício tenho a sensação de caminhar sobre a própria história do Brasil. Poucos lugares testemunharam tantos momentos decisivos da nossa formação.
No meio da caminhada encontrei Claudio André de Castro. Fiz questão de cumprimentá-lo e parabenizá-lo pelo extraordinário trabalho de recuperação do patrimônio histórico do Centro. Conversamos sobre a restauração da Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, dos antigos casarões e da importância de preservar a memória da cidade.
Enquanto conversávamos, ficou claro para mim que restaurar edifícios é fundamental. Mas nenhum prédio revive sozinho.
Quem devolve vida a uma cidade é o seu povo.
Foi então que pensei em Pereira Passos. Sua reforma modernizou o Rio, abriu grandes avenidas e renovou a infraestrutura da cidade. Mas também promoveu remoções e uma política de higienização urbana que afastou milhares de moradores pobres do Centro, na tentativa de aproximar o Rio do modelo das grandes capitais europeias.
Mais de um século depois, tive a impressão de assistir à resposta da própria cidade.
O povo voltou.
Voltou para ocupar as ruas, os museus, as igrejas, as praças, os mercados e os cafés. Voltou para transformar o Centro em um lugar de encontro, de comércio, de cultura e de memória.
No fim das contas, Pereira Passos transformou a paisagem.
Mas não conseguiu expulsar o povo do coração do Rio de Janeiro.
Foto (Acervo do Museu da República, de Augusto Malta): Pereira Passos, 1910.


