A Armadilha de Tucídides
Rio de janeiro

A Armadilha de Tucídides

A Armadilha de Tucídides Rio de janeiro

   Henrique Pinheiro * 

  * Economista e produtor executivo de Terra Revolta-João Pinheiro Neto, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor.  

  A frase dita por Xi Jinping a Donald Trump, durante o encontro em Pequim, talvez tenha sido um dos sinais geopolíticos mais importantes dos últimos anos.
 Ao perguntar se China e Estados Unidos conseguiriam evitar a chamada “Armadilha de Tucídides”, Xi não fazia uma referência acadêmica.
 Mandava um aviso ao mundo. 

 O conceito surgiu há mais de 2.400 anos com o historiador grego Tucídides, ao analisar a Guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta.
 A conclusão atravessou os séculos:
 “Foi o crescimento do poder de Atenas e o medo que isso provocou em Esparta que tornou a guerra inevitável.” 

 Atenas crescia.
 Esparta temia perder sua hegemonia.
 O resultado foi destruição. 

 Hoje, muitos enxergam exatamente essa dinâmica entre China e Estados Unidos.
 A China deixou de ser apenas a fábrica barata do mundo.
 Virou potência tecnológica, industrial, militar e financeira.
 Avança em inteligência artificial, semicondutores, infraestrutura e influência global.
 Amplia sua presença no Oriente Médio, África e América Latina.
 E começa a desafiar até o domínio internacional do dólar.
 Os Estados Unidos observam esse avanço com crescente preocupação.
 Não se trata apenas de economia. 

Trata-se de poder.
 Pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, Washington enfrenta um adversário capaz de disputar liderança global em escala real.
 Taiwan virou um barril de pólvora.
 Os chips passaram a valer mais do que petróleo.
 A guerra comercial virou guerra tecnológica.
 E o planeta começa lentamente a se dividir em dois grandes blocos.
 O problema é que a história não costuma ser gentil nesses momentos de transição.
 Foi assim antes da Primeira Guerra Mundial.
 Foi assim com vários impérios ao longo dos séculos. 

 A diferença agora é assustadora:
China e Estados Unidos possuem armas nucleares, economias profundamente interligadas e influência direta sobre praticamente toda a economia mundial.
 Uma ruptura entre as duas maiores potências do planeta não produziria apenas uma guerra regional. 

 Produziria inflação global, crise energética, recessão e instabilidade financeira em escala histórica.
 Talvez por isso a frase de Xi tenha causado tanto impacto. 

 Ela soou menos como diplomacia e mais como um alerta:
a China acredita que chegou sua hora.
 E talvez a pergunta mais perigosa do século XXI seja justamente esta:
os Estados Unidos aceitarão perder espaço sem reagir? 

 Porque foi exatamente aí que outras grandes potências do passado cometeram seus maiores erros.