Afonso Arinos e o peso das palavras
Rio de janeiro

Afonso Arinos e o peso das palavras

Afonso Arinos e o peso das palavras Rio de janeiro

     Henrique Pinheiro * 

      * Economista e produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor.  

   Ao tratar de Afonso Arinos em seu livro “Bons e Maus Mineiros”, Mauad 1996, João Pinheiro Neto não faz um retrato de homenagem. Faz algo mais interessante. Reconhece a grandeza, mas não abre mão da crítica. 

   Afonso Arinos de Mello Franco (1905–1990) era um dos homens mais brilhantes de sua geração. Jurista, diplomata, escritor, tribuno. Inteligência afiada, presença forte, dono da palavra.
Mas o texto não fica no currículo. Vai para o convívio. E é aí que ganha vida.
   João Pinheiro Neto e Afonsinho ( o embaixador) , filho de Afonso Arinos de Mello Franco, estudaram juntos no Ginásio Mello e Souza, na Zona Sul do Rio de Janeiro. A amizade começou ali e seguiu ao longo do tempo.
   Afonsinho passava férias em Ouro Preto, na casa do primo Rodrigo Mello Franco de Andrade, e de lá escrevia para o amigo.
   João Pinheiro Neto conta que até hoje guarda essas cartas.
   Eram cartas simples, de juventude, sem formalidade, que mostram uma relação próxima.
   Essa troca revelava a confiança e a  convivência real, longe da política.
   No Rio, a proximidade continuava. João Pinheiro Neto frequentava com assiduidade a casa do Dr. Afonso Arinos, na Rua Anita Garibaldi, em Copacabana.
   Não era visita ocasional. Era presença constante. Entrava, ficava, conversava, observava.
   E é aí que aparece um dos melhores retratos do livro.
   O velho Afonso, já consagrado, sentado em sua poltrona, olhos semicerrados. Ouvia mais do que falava.
   De vez em quando interrompia, corrigia uma palavra, ajustava um detalhe.
Bem ao estilo Mello Franco, atento à precisão. E então vinha a frase, quase um ritual.
   Vamos lá, menino, conte alguma coisa, preciso descansar o espírito.
   A cena é simples, mas diz muito.
Mostra um homem culto, seguro, que não precisava se impor.
   Sabia ouvir e observar.
   Mas é na política que o texto muda de tom.
   Afonso Arinos foi um dos grandes nomes da UDN.
   Orador respeitado, figura central da oposição a Getúlio Vargas.
   Tinha peso, tinha voz, tinha influência.
    E, segundo JPN, em algum momento passou do ponto.
   Ele não contesta o papel de oposição. 

   O que critica é o excesso.
   Fala de uma oposição dura, que em certo momento se tornou injusta. E, aí veio o trecho mais forte. João Pinheiro Neto disse ter a impressão de que o próprio Afonso Arinos se arrependeu.
   Referiu-se ao discurso feito pouco antes do suicídio de Vargas.
   Um discurso que, na visão dele, ajudou a acelerar o desfecho.
   Não  foi uma acusação leve.
   Foi uma leitura política e humana ao mesmo tempo.
   João Pinheiro Neto disse, em seu livro,  que palavra tem consequência.
   E que, na política, isso pesa.
   Ao mesmo tempo, ele não desmontou o personagem.Reconheceu a  sua inteligência e a sua importância.
Mostrou que mesmo os grandes erram.
   Esse é o valor do texto. Não idealiza. Não simplifica.
   Afonso Arinos aparece com grandeza e contradições. Como todo personagem real. No fim, o retrato é mais atual do que parece.
Em tempos de discursos duros, a lição permanece. Palavras têm peso. E,  podem empurrar a história.