Henrique Pinheiro *
Economista e produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor.
Ao retratar Israel Pinheiro em “Bons e Maus Mineiros”, João Pinheiro Neto não descreve apenas um personagem histórico. Ele resgata uma forma de exercer o poder que hoje parece cada vez mais rara. Israel não era um político de discurso. Era um homem de obra.
Filho de João Pinheiro (1860–1908), uma das figuras centrais da Primeira República, ex presidente de Minas Gerais e responsável por organizar as bases do Estado moderno no Brasil, Israel cresceu em um ambiente onde a vida pública era entendida como missão.
Israel Pinheiro da Silva (1896–1973) era também irmão de João Pinheiro Filho, pai de João Pinheiro Neto, o que dá ao relato de JPN um caráter ao mesmo tempo histórico e pessoal. Não se trata de um retrato distante, mas da visão de quem conviveu com o personagem.
João Pinheiro Neto insiste em um traço essencial. Israel não buscava reconhecimento. Buscava resultado. Em um ambiente político muitas vezes dominado pela retórica, destacava se pela objetividade. Não era homem de promessas, mas de entregas.
Sua personalidade, descrita por JPN como dura na aparência e generosa no fundo, refletia uma autoridade construída no trabalho. Não precisava agradar. Precisava fazer.
Esse perfil ficou evidente desde cedo. Como secretário no governo Benedito Valadares (1892–1973), tornou se peça chave de uma administração marcada pela eficiência. Sua lógica era a da execução, não a da improvisação.
Foi fundador da Companhia Vale do Rio Doce e seu primeiro presidente. Sob sua liderança, a empresa deixou de ser apenas uma criação formal do Estado para se transformar em um instrumento estratégico do desenvolvimento mineral brasileiro. Israel deu direção, estrutura e disciplina à Vale em seus primeiros anos. Era um tempo em que o Estado planejava e executava.
Na Câmara dos Deputados, presidindo a Comissão de Finanças, manteve a mesma postura. Tratava o orçamento com rigor e exercia o poder com senso de responsabilidade. Não era dado a concessões fáceis.
Mas foi na construção de Brasília que sua atuação ganhou dimensão histórica.
Como presidente da Novacap, empresa criada para erguer a nova capital, Israel foi o principal responsável pela execução da obra. Juscelino Kubitschek tinha a visão política. Israel Pinheiro garantiu que ela saísse do papel.
Era o homem do prazo, da cobrança e da entrega. Impôs ritmo à construção e transformou um projeto ambicioso em realidade concreta em tempo recorde. Brasília não foi apenas um gesto político. Foi uma obra administrada com disciplina e método. Não havia espaço para atraso nem para improviso.
Após a construção de Brasília, foi eleito governador de Minas Gerais em 1965, levando para o governo estadual o mesmo estilo direto, disciplinado e voltado para a execução que marcou toda a sua trajetória.
João Pinheiro Neto também destaca sua segurança pessoal. Um episódio ilustra bem esse traço. Ao ouvir a ironia do Barão de Itararé, que dizia que Israel Pinheiro “comeu o doce, bebeu o rio e botou o vale na caixa”, reagiu com uma gargalhada.
…. A frase fazia um jogo de palavras com a Companhia Vale do Rio Doce e insinuava poder excessivo sobre recursos estratégicos. Israel não se incomodou.
Sabia que sua legitimidade vinha daquilo que construía.
Essa postura revela um homem que não dependia de aplauso nem temia crítica. Sua autoridade vinha da obra.
João Pinheiro Neto sugere que esse tipo de liderança se perdeu ao longo do tempo. A política passou a valorizar mais a exposição do que a realização. Mais o discurso do que a entrega.
Israel Pinheiro representa o contrário disso. Era um homem de Estado no sentido clássico. Governar, para ele, era construir.
Em um país que ainda enfrenta dificuldades para transformar projetos em realidade, sua trajetória permanece atual. Mostra que desenvolvimento exige mais do que ideias. Exige capacidade de execução.
Na leitura de JPN, Israel Pinheiro não foi apenas um administrador eficiente. Foi um dos grandes construtores do Brasil moderno. Sua obra continua a falar por ele.
Era uma geração que via o Estado como instrumento de transformação.
Hoje, essa visão parece cada vez mais distante.

