Após terem parado de estudar ainda muito jovens por conta de necessidades e falta de oportunidades, trabalhadores da construção civil se dedicam aos estudos em uma sala de aula adaptada em um canteiro de obras

O sonho de recuperar o tempo perdido e dar uma guinada na vida profissional é o que motiva 16 funcionários de um canteiro de obras da Consciente Construtora e Incorporadora, que iniciaram neste mês de janeiro as aulas do 8º ano do Ensino Fundamental. Eles aproveitam o espaço disponibilizado pela empresa, dentro do local onde trabalham, para estudar de segunda a quinta-feira, logo após o expediente.Fotos:Divulgação

O que não falta é disposição e dedicação para alcançar o sonho de formar e buscar melhores condições de vida. Foi o que aconteceu com o carpinteiro Luiz Carlos Nogueira (45), que fez parte da primeira turma ainda em 2011. “Quando entrei na empresa e tomei conhecimento desse projeto, não tive dúvidas em dar continuidade aos meus estudos”, afirma o trabalhador da construção civil.

Luiz Carlos, que cursou apenas até o 4º ano do Ensino Fundamental na zona rural da cidade de Eliseu Martins, no Piauí, disse que as dificuldades para frequentar as aulas na infância o impediram de continuar os estudos. “Onde eu morava, só tinha até a 4ª série. Para dar prosseguimento, teria que deslocar até a cidade que fica a 18 km. Então, tive que parar e ajudar no trabalho na roça”, destaca o carpinteiro.

Luiz Carlos entrou na empresa como ajudante de pedreiro e, depois de passar pela escola, passou a ser operador de guincho de coluna e, agora, é carpinteiro. “A escola me incentivou a seguir estudando. Fiz cursos profissionalizantes e consegui avançar na minha profissão”, comemora.

A escola

O projeto Ensino Consciente é promovido pela Consciente Construtora e Incorporadora em parceria com o Sesi. A professora Paula Gabriela Ribeiro, que participa da ação desde 2011, leciona para uma turma de 16 homens, com idades entre 30 e 50 anos. As aulas, que começam às 17 horas e seguem até às 20 horas, acontecem em uma sala adaptada e climatizada no canteiro de obras do Gaia Consciente Home, empreendimento que está sendo construído no Setor Bueno.

Paula afirma que a dedicação e a persistência dos alunos a motiva a estar presente todos os dias na sala de aula. “Só o fato de eles estarem aqui depois de um dia puxado de trabalho, mostra o quanto eles são comprometidos. O dia a dia também mostra que eles buscam uma mudança de vida, já que o índice de faltas é mínimo”, destaca a professora.

Um desses alunos é o armador Alexandro Francisco da Silva (38), que viu na escola dentro da obra uma oportunidade de progredir dentro da própria empresa. “Tenho desejo de ser motorista na Consciente e o estudo está sendo fundamental para que eu possa tirar a habilitação categoria D. Com a escola, estou animado a continuar me capacitando para me candidatar ao cargo”, projeta o armador que cresceu na cidade de Verdejante, em Pernambuco. “Eu só tive oportunidade de estudar até a 5ª série porque eu morava muito longe da escola, uns 40 a 50 km. Parei para ajudar meu pai no campo e agora tenho muita possibilidade de mudança de vida”, completa.

“É muito gratificante quando um aluno vem até a mim e começa a dizer que conseguiu ler algo na rua ou que conseguiu ler e interpretar a prova para tirar a habilitação”, afirma a professora. Ela explica que a turma deve completar as aulas do 8º ano até outubro deste ano, na modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA). O projeto prevê a continuidade das aulas até o fim do Ensino Médio nos anos sequentes.

Artigo anteriorMulheres na luta constante para quebrar estereótipos
Próximo artigoParrilla Beer abre vaga para parrillero
Avatar
A jornalista Isabel Almeida, trabalha atualmente na Embrapa, é editora do site bsbflash, youtuber do canal Flash Brasília e escreve em diversos sites como: colunista do jornal Alô Brasília. Natural de Brasília, já trabalhou em diversos órgãos do DF, como na Secretaria de Educação; na Administração Regional do Gama; na Secretaria de Saúde, na Câmara Distrital, e também em GO, na prefeitura de Valparaíso, na gestão de José Valdécio . Atuou também no Conselho Federal de Engenharia e Agronomia- Confea, foi editora da revista Fala Prefeito; e colunista da revista AC/DF e colunista do site AIB News do Rio de Janeiro. Desde 2010 é vice-presidente da Câmara de Comércio Brasil e Portugal,e em 2016, foi nomeada presidente do Conselho comunitário do Octogonal e Sudoeste.